quinta-feira, julho 21, 2016

É necessário falar tanto da família?

Por Tihamer Toth 
Não existe verificação que atualmente mais se ouça do que esta: 
“a família em nossos dias passa por séria crise”.


O casamento e a família. Quem não vê a importância decisiva desta questão? Quem não vê que a humanidade se coloca hoje ante estas graves questões do casamento e da família, como diante de uma esfinge enigmática? O homem moderno que conseguiu revelar cada vez mais o véu que ocultava a natureza, com suas esplêndidas descobertas, pensou ser o matrimônio resolúvel pelas leis da natureza, qual um problema da matemática.
Teve, porém, grande desilusão. Após amargas experiências, foi obrigado a reconhecer que o casamento não é um problema numérico, que se possa resolver única e totalmente pelo raciocínio. Não; o casamento, a família constitui uma “equação” a várias incógnitas, que a matemática não resolverá porque êle é, segundo a expressão de S. Paulo, “um grande mistério” (Ef 5, 32), que só o homem arraigado em Deus pode dominar e resolver.
Não existe verificação que atualmente mais se ouça do que esta: “a família em nossos dias passa por séria crise”.
Seria impossível e mesmo injusto não lembrar que há causas muitas e complexas a influir na crise atual da família. Seria injustiça negar que uma dessas causas é a crise econômica com todas as suas consequências: desemprego, falta de habitação, privações e por consequência atritos e pontos de vista diversos entre os esposos, além do crescente nervosismo, impaciência, egoísmo, etc. Tudo isto é verdade, e bem verdade.

Entretanto, meus irmãos, se de uma parte o reconhecemos com toda franqueza, de outra parte outra verificação adverte-nos que a atual crise da família não pode ser suficientemente explicada por causas exclusivamente econômicas.
Verificamos, com efeito, que a família está abalada não só entre pessoas necessitadas, mas que, ao contrário, a crise é maior e mais triste entre famílias cuja situação material é boa, e onde não se fala em privações. E a prova de que a mediocridade e a pobreza não são os verdadeiros inimigos da família são os exemplos dos esposos para os quais a vida familiar e o amor recíproco se tornam mais fortes pela pobreza, e eles mesmos mais unidos porque a luta pela vida suscitou neles valores morais, cuja existência, antes, eles ignoravam em si mesmos.
Se para a família ressoa o apelo de socorro dos navios em perigo de naufrágio: S.O.S., é preciso recordar que não poderemos salvar a família em perigo, senão pela salvação da alma e dos valores morais. A família precisa realmente de uma “reforma”, mas essa reforma só se realizará respeitando-se novamente o ideal cristão do casamento.

* * *
Antes, porém, de minuciosamente tratar dessa questão, devo prepará-la respondendo a um ponto preliminar: demonstraremos cuidadosamente ser, na realidade, essa questão, de uma importância tão vital, que mereça se lhe consagrem as instruções de todo um semestre.
I) É necessário falar tanto da família? A resposta, procurarei dá-la na primeira parte do texto. Responderei depois uma questão, que talvez alguns possam formular:
II) Será que um padre católico pode tratar deste assunto?
I) NECESSIDADE URGENTE
Há, com efeito, homens a levantar esta questão. São cada vez mais raros, infelizmente.
Admirados farão esta pergunta os que cresceram em antigas famílias ideais, famílias religiosas, conscienciosas, fonte de paz e de felicidade onde a questão do casamento e suas relações não constituiriam um problema. Os pais e avós não falaram muito disto às novas gerações vindouras, mas nessas venerandas famílias, as tradições permaneciam tão vivas, que a nova geração, constituindo uma família, por si mesma, instintiva e naturalmente, resolvia o problema.
Isso não era, todavia, a menor bênção da família antiga e venerável.
             Hoje, porém, como estamos longe disto! Milhares e milhões de jovens crescem, ao redor de nós, desconhecendo as bênçãos da vida familiar e o calor do lar doméstico.
Lar! Palavra magnífica! Ninho abençoado!
Dizei-me: existe ainda hoje um lar? Um lar, com seu doce e benéfico calor?
Lembro-me aqui, não só dos mais desgraçados dentre os desgraçados, dos filhos infelizes, cujos pais estão separados. Lembro-me da multidão imensa de filhos, cujos pais vivem em comum, mas em constantes rixas e discórdias perpétuas. Lembro-me destas crianças que nunca provaram a doçura de um lar, porque nem seu pai e nem sua mãe amam a vida de família. Ambos sentem mais alegria em fugir de seu lar. A criança fica entregue a si mesma ou a uma doméstica, a uma empregada, ou então vai aonde quer.
Lembro-me também desta multidão de jovens obrigados a ganhar o pão, arrancados às paredes protetoras do lar antes que se lhes chegue o tempo dos cuidados pela existência.
Lembro-me, ainda, dos inumeráveis ataques que o homem moderno lê, ouve, a cada instante nos jornais, revistas, e na sociedade, ataques contra a família, cuja formação ideal nunca ele viu, nem apreciou, e nem tentou evocar. Disto tudo eu me lembro, eu penso, e agora estou convicto da necessidade urgente de falar, e falar minuciosamente, desta questão, perante o homem de hoje.
              Demais, torna-se necessário ainda ocuparmo- nos deste problema, porque outros querem tenaz e incansavelmente resolvê-lo, embora de um modo tão brutal, tão afrontoso e audaz, confundindo os espíritos muito mais que antes.
              Os antigos se baseavam em todas as coisas, pelo que observavam no lar; hoje, pelo contrário, os homens se desorientam pelo que veem em casa. Outrora, a mãe era, para a filha adolescente, a amiga mais íntima, a quem esta recorria em todas suas dificuldades. E hoje? Ela se dirige a uma agência de casamento ou à secção de correspondência de um semanário ilustrado, e mesmo eventualmente a médico psicanalista.
a)    Quantos escritores, quantos poetas e políticos, quantos filósofos e artistas, quantos autores dramáticos e cineastas se voltam, hoje, para o grande problema, a crise da família. É incalculável o número de obras provocadas por esta questão, e cujos produtos inundam, diariamente, as livrarias.
Devemo-nos, porém, felicitar ante esta abundância? Quanto mais nos ocupamos desta questão, mais nos perdemos num oceano de nuvens.
              Mas, dir-se-á talvez, que fará a Igreja nesta questão do matrimônio? Não é ele um contrato entre pessoas particulares? Não é um negócio puramente profano e social?
Não, mil vezes não! Tendo em vista sua origem, seu fim, e os deveres que dele decorrem, afirmamos bem alto, o casamento não é um simples contrato civil, e, sim, uma instituição moral e religiosa.
             O casamento vem de Deus. Autor de todas as leis da natureza, Ele criou o homem de tal maneira, que sua reprodução ulterior não lhe é assegurada senão pela coexistência constante de dois seres, portanto pelo casamento. O casamento, porém, no momento da criação da raça humana, recebeu um caráter divino todo particular, pelo ato simbólico de Deus, tirando a primeira mulher do lado do primeiro homem, e dando-lhe por esposa, dizendo: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra (Gn 1, 28).
             O fim do casamento dá-lhe também um caráter religioso. Os esposos, com efeito, são os colaboradores do Deus Criador.
Cada vez, porém, que os esposos cumprem a sua tarefa de dar a vida física, Deus age com eles, criando, ao mesmo tempo, uma viva alma, e depondo-a no novo rebento humano, que acaba de florescer, graças aos esposos.
Grande honra é, pois, para os esposos, o serem, propriamente falando, instrumentos nas mãos de Deus Criador, e o de estarem realmente unidos com Deus. Disse-o igualmente Nosso Senhor Jesus Cristo: “Que o homem não separe aquilo que Deus uniu” (Mt 19, 6).
Basta olharmos para a história da civilização, e em todos os povos e em todos os tempos, encontramos o casamento, como um ato religioso, feito entre cerimônias religiosas as mais diversas, provando isto haver realmente relações estreitas entre o matrimônio e a religião, e necessitarem os esposos do auxílio especial de Deus, quando querem cumprir os seus deveres conjugais.
             Os deveres anexos à família tornam-na também uma instituição moral e religiosa. A Providência quis constituir na família uma pequena cidadela particular, uma praça forte, um jardim bem fechado, tornando-se ela um lugar de paz onde a nova criatura viria ao mundo, nasceria, se fortificaria fisicamente, chegaria a utilizar suas faculdades intelectuais, formar-se-ia e se desenvolveria completamente. A família é o lugar sagrado, onde uma geração coloca nas mãos de outra o facho da vida, aceso pelo próprio Deus no momento da criação, e que não se extinguirá senão ao som da trombeta do juízo final.
O Criador uniu, pois, o primeiro casal humano pelos laços da família. Esta é, portanto, a associação mais antiga, a mais fundamental da humanidade, mais importante que qualquer outra associação ou instituição posterior. Mas se o centro de gravidade de toda humanidade repousa sobre a família, compreende-se, então, a solicitude, cheia de responsabilidade, com que o cristianismo sempre velou pela integridade da família.
             Notamos, contudo, esta grande solicitude se considerarmos quanto a Igreja estima a família, não tanto pela sua missão terrestre, mais ainda, porém, pela sua tarefa supraterrestre.
Tudo começa aqui em baixo, mas tudo acaba lá em cima. Toda a vida humana floresce na terra, mas dá seus frutos no outro mundo. A família não é, pois, somente a fonte da vida terrestre, mas é também da vida eterna; ela é, pois, o ponto de partida daqueles que, um dia, ocuparão os lugares de vencedores no reino celeste.
Vistes, agora, por que a Igreja vigia com tal solicitude o matrimônio e por que não tolera que as paixões humanas, e a ânsia dos prazeres, profanem uma instituição à qual estão anexos os tão graves interesses do reino do céu?
É porque a família não é somente importante para a sociedade, para a Nação, para o Estado, como também para a Igreja de Cristo. Não é o Papa que é a Igreja, ele é o chefe da Igreja. Os sacerdotes e os bispos não são a Igreja, — são os servidores da Igreja. Mas a Igreja são estes milhões de fiéis fornecidos pelas famílias. O Corpo místico de Cristo, que nós chamamos Igreja, estaria mutilado, e seria desprezível se se compusesse só de sacerdotes e bispos, se se constituísse só de pastores sem rebanhos.
Com a força ou fraqueza da família cristã, com seu valor ou desvalor, com suas virtudes ou seus defeitos, crescem ou degeneram, também, a força, a beleza e o florescimento da Igreja, Corpo místico de Cristo. Se nas famílias cristãs a fé e a pureza diminuem, a Igreja também se torna doente e anêmica; se, pelo contrário, a fé e a virtude são fortes em nós, a Igreja também floresce em beleza. A Igreja não pode, pois, ficar indiferente à vida familiar dos fiéis. A sorte do Corpo místico de Cristo está ligada à sorte da vida familiar dos cristãos, e à maneira com que eles ouvem a palavra de Deus, observam os mandamentos, e se esforçam para caminhar, durante sua vida terrestre, sob a luz do Evangelho. É preciso, pois, falar, desta cátedra, acerca da família, é preciso falar muito porque imensos interesses morais e religiosos dela dependem. É preciso falar disto, porque estamos convencidos de que a luta empenhada contra a família é a arma mais poderosa da irreligião. Mas estamos, também, convencidos de que a grande luta sustentada em defesa do ideal cristão não se decidirá finalmente, nas ruas, nem na vida pública, nem no parlamento, mas sim no lar doméstico. Quaisquer que sejam as desgraças externas, as provas e as perseguições que atinjam o reino de Cristo, ele vencerá todos, enquanto houver famílias acolhedoras de Cristo, abrigando-o no Santuário do lar cristão.

É, pois, preciso falar, e longamente, do casamento e da família.

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