segunda-feira, junho 27, 2016

O tempo

Por Gustavo Corção, “A descoberta do outro”, p. 31-38. 

A vida é longa demais, disse para mim mesmo. É longa demais e assenta mal no homem. 
Parece um camisolão talhado para gigantesco manequim e que nos foi atirado nas costas por irrisão. 
Sobram mangas e abas. Como fazer? Como matar o tempo? 
Viver é fazer pregas, apanhados com alfinetes de emergência nessa túnica ridícula... 
A vida é longa demais.


Desde os primeiros dias que se seguiram, e logo que sacudira o pó de minhas convicções socialistas, achei-me diante duma entidade perturbadora. Era o tempo. Que sentido tinha o tempo? Sentia-o como um vento frio que me doía nos nervos, como uma lixa. Seu mecanismo enorme de gastar vinha das rotações e o cosmos era um rebolo. Mas analisando melhor vi que o tempo não tem sempre a uniformidade astronômica garantida pela rotação da Terra. Ao contrário, ele parece vivo e cheio de paradoxos; as horas, por exemplo, parecem intermináveis, mas os anos são sempre brevíssimos. Mas as próprias horas não são sempre intermináveis; às vezes agacham-se numa imobilidade retesada, traiçoeira, e subitamente saltam com ímpeto e ferocidade. Evidentemente o tempo tem um conchavo com a morte, ou é a própria morte burocraticamente escondida nas folhinhas.

Uma noite, em casa de parentes, depois de uma conversa frouxa e três comentários sobre os acontecimentos do dia, alguém descobrira numa revista um brinquedo, uma espécie de exercício de memória. Eram cinco ou seis pessoas reunidas, constituindo esse fenômeno que nos romances otimistas se chama um serão familiar. Cada um se esforçava por prover seu engenho e sua boa memória e havia risadas divertidas quando alguém dizia disparates. Fiz também a charada e gostei de ter acertado. De repente, aproveitando um silêncio, o relógio meteu dez badaladas.
Credo! Já são dez horas. Parecia mais cedo...
Foi bom. Só assim passamos duas horas.
Disseram aquela frase. Tínhamos conseguido passar duas horas, isto é, tínhamos engolido, sob o engodo da charada, duas enormes pílulas cósmicas. Não sei como me despedi e só me recordo de estar fechado no meu quarto, sentado diante de minha mesa, arrasado, estúpido de desespero.
Estava numa encruzilhada como quem tivesse feito uma caminhada fatigante, por estradas de pedra e lama, e visse cair a tarde chuvosa diante duma divergência de caminhos que não iam ter a nenhum lugar. Minha impaciência nervosa de andar nem tinha o que escolher, tanto fazia um como outro, ambos com chuva e ambos entupidos. Andaria neste ou naquele, pela noite adentro, encharcado, rompido, sem a menor esperança duma porta que se abrisse para uma casa luminosa. Quando era pequenino, muito pequenino, tinha ouvido no colo duma ama a história terrível de João e Maria. No momento em que as crianças se perdiam no mato escuro, eu sentia um arrepio que ia durar quarenta anos. E, por mais feroz que fosse a velha feiticeira que ia prender os meninos na gaiola, por mais que já soubesse que eles iam correr o risco da fogueira, era com grande alívio que ouvia a ama contar que então as crianças tinham visto ao longe uma luz... Tudo mais teria uma solução, a gaiola, a fogueira, a velha; mas estar perdido no escuro era terrível demais.
Aquela frase banal, no entanto, revelava-me uma miséria insuspeitada e ainda maior do que minha impaciência trepidante e vazia: revelava uma paciência vazia, um desespero ainda maior, porque era uma espera sem objeto, qualquer coisa antes mesmo do medo e da vida, como o obscuro estremecimento de um feto que não devesse nascer.
Então — disse para mim mesmo — o que todos fazem, andando nas ruas, conversando nas salas, nas esquinas movimentadas, nos cafés entre a azáfama dos garçons e os tinidos das xícaras, nos cassinos, nas praias cheias de sol... é só isso: engolir horas. Matar o tempo. Vivem como se o mundo fosse a antecâmara duma burocracia colossalmente inútil, numa espera sem sentido, numa espera paciente, desmemorizada, suavemente temperada de idiotia, duma espera que se diverte e que caminha para o nada com gritinhos de alegria enfermiça, com pequeninos protestos em falsete de horror ao vazio.
A vida é longa demais, disse para mim mesmo. É longa demais e assenta mal no homem. Parece um camisolão talhado para gigantesco manequim e que nos foi atirado nas costas por irrisão. Sobram mangas e abas. Como fazer? Como matar o tempo? Viver é fazer pregas, apanhados com alfinetes de emergência nessa túnica ridícula... A vida é longa demais. Ou será o tempo uma frase e a repetição dos dias e dos anos um sinal de divina paciência, duma paciência que espera resposta e não cansa de chamar? Mas ninguém ouve; e cá estamos, tropeçando em panos, enrodilhados nas próprias vestes, passando meio século entretidos em arregaçar mangas e pregar alfinetes.
Dei então em andar pelas ruas à procura do extraordinário. Ao menos andaria em vez de ficar sentado, procuraria alguma coisa em vez de fazer charadas. Ao menos não teria de suportar a goteira das horas no meu quarto. Saí para a rua. Andei espiando os outros que passavam. De repente um transeunte me interessava prodigiosamente: ia atrás dele, com precauções de namorado e de polícia. Espiava-lhe os gestos, surpreendia-lhe os pequeninos estremecimentos dos músculos da face. Via-o com curiosidade febril entrar numa loja de ferragens ou tomar um refresco de coco. Tinha a impressão que se eu o abordasse subitamente, travando-lhe o braço, poderia haver entre nós um entendimento inesperado. Ele sabia, decerto, uma parte de meu segredo... Mas desanimava, pensando que o gesto seria insólito, e abandonava, agora com indiferença, a presa perseguida à rua dissolvente.

*

Certos dias, sentado num café, ficava a olhar na porta o fluxo de gente. Passavam e nunca tornavam a passar. Para que serviriam tantos rostos diferentes? Cada vulto entrava no vão da porta, dava dois passos, fazia três gestos e desaparecia. Foi nessa ocasião que descobri a tristeza das roupas e a melancolia imensa dum embrulho de café com pauzinho. Lá vai ele, o bom munícipe, para casa, para o chinelo, para as pílulas...
Havia naquilo tudo um equívoco, um erro fundamental muito mais grave do que o mal-entendido das classes que tanto me havia preocupado. Havia erro mais grave e mais íntimo. Diria mesmo uma traição. Algum dia os homens teriam traído ou teriam sido enganados, e nesse dia o tempo entrara na cidade dos homens pela brecha da traição ou escondido no bojo duma falsa promessa. Agora a cidade estava em pânico e o inimigo governava. E por isso os homens passam nas ruas com seus chapéus incríveis, com suas roupas, com seus casacos ridículos batendo nádegas tristes. E debaixo de suas botinas a casca árida do planeta dança e despenca pela imensidade.

*

Uma tarde, na rua do Ouvidor, uma velha caiu na minha frente. Ouvi o ruído surdo e impróprio duma rótula batendo no chão. Ajudei-a vexado; ela levantou-se gemendo e olhando em volta com espanto: — Vejam só, tinha caído! A rua toda pareceu-me subitamente parada e o tempo vencido por aquele encontro. Eu existia, eu era, com o testemunho da velha que me segurava no braço; entre nós se estabelecera um pacto que entraria pela eternidade. Mas a impressão foi logo destruída e a eternidade gastou-se em poucos segundos. O movimento da rua recomeçou e a velha dobrou a esquina. Levava o seu segredo e o depoimento do meu; guardaria alguns dias uma mancha roxa no joelho; explicaria às filhas e às netas, com abundantes preceitos, como tinha caído, e na história confusa da velha eu estaria associado como um cavalheiro magro e vestido de brim. Com o correr do tempo eu seria uma sombra apenas, vestida de brim. E quando a velha morresse levaria o último vestígio daquela cena desbotada; e depois ninguém mais saberia que naquela tarde nós dois nos tínhamos encontrado, eu e a velha.
As órbitas eram rebolos de um esmeril com a função de roer todos os encontros. Estávamos metidos num engenho, éramos lixados, mastigados, triturados, aos bocadinhos, um pouco hoje, mais um pouco amanhã. Ou então — disse para mim mesmo — estamos sendo queimados. Cada um de nós é uma chama acesa. Aquela moça que passou, por exemplo, com seu chapeuzinho difícil e vermelho, é um archote com a resina de seu sangue. É uma chama, um corpo em combustão, e lá por causa da sua natureza íntima, como acontece com as estreias, a chama é vermelha como o chapéu e seu espectro é cheio de raias vistosas! Cada um de nós tem suas raias, sua chama, e arrasta nessa consumação o esplendor dum espectro. Cada uma seria uma vela e a rua toda pareceu-me uma interminável procissão de velas bruxuleantes. Por que velas? Onde vira eu uma vela pela última vez?...
O segredo de cada um estava em como morria, na medida em que morria, em que deixava de ser. Haveria alguma coisa que fosse o que era? Alguma substância no meu eu, um sebo, um azeite, uma gordura, que fossem o que eram antes de serem queimados?
E como a rua só me respondesse com o fluxo da gente, com o movimento perpétuo, com o gracejo das vitrinas, com a ironia fatigante das roupas e dos embrulhos, eu voltei para casa revolvendo pensamentos sombrios e violentos.
Então — dizia para mim mesmo — será melhor expor ao vento dos séculos o peito nu, rasgar as roupas, rasgar a carne, descobrir o próprio coração. Antes ser chama viva. De que nos serve agasalhar carvões ardentes de consumo lento e cotidiano? Antes ser chama viva que se veja de longe e que crepite alto com a festa e a glória dos incêndios!

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