segunda-feira, junho 20, 2016

O Peão Passante

Por Margarida Hulshof



Muitos livros já foram escritos sobre o Xadrez, e certamente, também, algumas histórias de ficção inspiradas nesse jogo. Mas dificilmente alguma delas será mais inspirada e criativa que “O Peão Passante”, um romance que utiliza o jogo de xadrez e suas incríveis facetas e possibilidades para metaforizar as relações humanas e suas implicações dentro de um reino fictício, sem época definida e sem muita lógica. 
A história descreve, como seria de esperar, uma partida de xadrez. Um rei precisa morrer, para que o outro possa governar o Reino das Sete Vilas do Leste, já que a sobrevivência de dois herdeiros gêmeos, dividindo ou não o trono, atrai maldição e desgraça para o povo. Mas o tabuleiro é a vida e as peças são seres humanos, com suas qualidades, suas fraquezas, sua história tantas vezes esquecida ou ignorada. O livro quer mostrar que, no jogo da vida, não há peças mais importantes que outras, embora algumas possam ser mais fortes ou receber mais poder. Pois o verdadeiro sentido do poder está no serviço... Exercer a autoridade é legítimo e necessário quando a missão é assumida como sacrifício e renúncia generosa aos próprios interesses.
O que irá prevalecer? A estratégia ou a amizade? O que vale mais numa guerra: a organização ou a união? A eficiência ou a lealdade? Podem essas coisas andar juntas? Qual o verdadeiro objetivo pelo qual se deve lutar?

            Veja abaixo um excerto do livro:

O lamento de Viswanathan

            O homem que estava sentado em uma cadeira baixa e sem encosto, debruçado sobre uma mesa quase tão baixa como a própria cadeira, parecia recurvado pelo peso dos anos, mas não era velho. Não era nada velho. Não se parecia nem mesmo com um homem: não tinha mais do que dezoito anos e seu rosto era pálido, intocado, branco, liso como porcelana.

Era, contudo, verdadeiramente um homem. Não por ser forte ou excessivamente alto – mesmo sendo as duas coisas – mas por ter sido forçado, durante todo o período de sua curta vida, a exercer o raciocínio muito além do que o fizera qualquer outro homem no auge de sua maturidade ou de sua velhice. Nascera e fora criado para pensar. Fora educado com um inconfundível fim: aprender as regras do jogo. O jogo que deveria jogar quando estivesse pronto.
Seria precipitado, mas não de todo desnecessário para compreender este homem, afirmar sobre ele que não falhou em aprender as regras do jogo, mas sim, talvez, em aprender as regras da vida. Ainda, não por orgulho, mas por um senso de dever, ele realmente acreditava ser um homem inteligente, um homem de raciocínio aguçado, um homem de perspicácia.
            Mas naquele dia, naquele preciso momento, ele amaldiçoava a própria inteligência. Reconheceu-se como um animal treinado para o abatedouro, reconheceu ter sido cuidadosamente preparado para algo muito mais terrível do que ele jamais teria calculado com as forças de toda a sua imaginação. Aos dezoito anos de vida, Viswanathan conheceu seu futuro, e compreendeu seu passado, como se nada houvesse além daquele momento, e de fato não havia. Nada além de um jogo a ser jogado. Nada além de uma única vitória, uma única batalha, se fosse possível vencê-la.
            Cansado, realmente cansado de pensar, Viswanathan estendeu a mão – excessivamente jovem – e apanhou uma das peças do jogo de tabuleiro que jazia imóvel à sua frente, e que ali estivera, inalterado, durante toda a manhã.  As palavras de seu pai, naqueles dias mais felizes, voltaram agora, claras em sua mente como os seus próprios olhos azuis, claras como o céu no dia mais quente de verão: “Ninguém esquece qual é o valor da sua rainha. Mesmo os jogadores mais iniciantes podem esquecer quem vale mais, o cavalo ou a torre, mas nunca se esquecem da rainha. E muitos, quando a perdem, desistem do jogo como se o tivessem perdido. Nunca se esqueça do quanto vale a sua rainha, meu filho”.
            Isso era agora tão óbvio que ele nunca teria se lembrado de que, quando criança, todas essas coisas ainda eram misteriosas. Mas agora essas mesmas palavras tinham uma conotação diferente, muito curiosa. Pareciam insinuar algo que ia muito além dos pontos, algo sobre a necessidade que tem um homem de uma mulher.
            Viswanathan olhou para a sua rainha. A peça pesada de bronze era parte do jogo mais antigo que tinha, e ao qual se afeiçoara, mesmo possuindo outros de ouro e cristal. A porta então se abriu. Ele não se moveu, nem mesmo alterou a expressão perturbada com que olhava para a peça em suas mãos brancas e rígidas. Sem olhar para trás, adivinhando de quem se tratava pelo simples fato de que não poderia ser outra pessoa, Viswanathan perguntou:
            – Quanto vale uma rainha? – e depois, com os lábios débeis, tremendo de ansiedade, acrescentou alteando a voz: – Quanto vale o jogo? Quanto vale a vida?
            A figura que adentrara em seu quarto e se aproximara dele em passos perfeitamente silenciosos, abraçou-o por trás, agarrando a mão que segurava a peça, e sussurrou em seu ouvido:
            – Se você for o rei, a sua vida vale o jogo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...