terça-feira, junho 07, 2016

“Estamos sendo queimados”

Por Gustavo Corção, “A descoberta do outro”, p. 31-38.

As histórias costumam acabar assim: casaram-se e tiveram muitos filhos... A minha história, porém, continuava de pé, como quem anda de um lado para outro num corredor sem lembrar exatamente o que espera.



Uma noite — anos mais tarde, estando eu já casado novamente e até esperando filho — sentei-me num sofá, na sala de jantar, vendo minha mulher costurar sob a luz do abajur; e, de repente, pensando alto, disse-lhe:
— Precisamos ter um cachorro, um terra-nova.
As cogitações que me haviam conduzido à conclusão de aparência tão banal tinham para mim, entretanto, uma importância decisiva. Estava curado do materialismo histórico e mesmo da saudade; uma vida normal e feliz parecia estar novamente à minha disposição. Mas apesar de tudo não sabia onde meter minha impaciência e não conseguira inscrever a vida num epílogo confortável. As histórias costumam acabar assim: casaram-se e tiveram muitos filhos... A minha história, porém, continuava de pé, como quem anda de um lado para outro num corredor sem lembrar exatamente o que espera. Tempos atrás, quando andava pelas ruas à procura do extraordinário, eu julgava que a vertigem das horas me vinha do luto e da saudade. Agora já não tinha essa explicação.
Experimentara ultimamente diversos métodos para a conquista de um método; tentei meter minha impaciência em horários ou sentá-la numa poltrona. Comprei cadeiras confortáveis e especiais para a leitura, mas não conseguia ficar sentado: acabava lendo em pé ou não lendo. Melhorei meu escritório, e logo ele me pareceu alheio e inóspito.

Pelas conversas, pela leitura, e até pelo espiar as janelas com ávida curiosidade, sabia a vida dos outros enquadrada perfeitamente no ciclo da semana e das quatro estações. Via na vizinhança indivíduos saírem e entrarem a horas certas, casais irem regularmente às sessões das segundas-feiras, usarem roupas de acordo com o sol e com a chuva, e terem recantos constantes para passar a noite, emendando a leitura do jornal num jogo de cartas.
O mundo inteiro parecia um relógio monumental, desses que indicam dias da semana e fases da lua. O ciclo estava em toda parte como um metrônomo esquecido em cima de um piano de subúrbio, estava no barbeiro, na oficina, na escola, e até no restaurante havia uma sutil concordância entre o calendário e uma carne de porco. É verdade que de vez em quando morria um conhecido; a notícia parecia quebrar como uma síncope o compasso sonolento e fácil, mas logo o ciclo tomava conta do defunto e lá vinha a missa de sétimo dia e do mês. Depois o defunto esbatia-se nos fatos consumados, nesse fundo cinzento das coisas que já não espantam ninguém. E a vida continuava.
A mim, nessa época, tudo me parecia provisório, instável, e de cada dia que passava só me restava uma impressão: que era ímpar, que era uma espécie de sobra dum ano constantemente bissexto. Consegui ter casa própria, mas desse fato não lucrei nenhuma das sensações plásticas que as propriedades costumam produzir. Uma vez fui para a calçada oposta, como tinha visto alguém fazer, para olhar a minha fachada com olhos de dono, mas estando o céu estrelado surpreendi-me a pensar na velocidade da Terra, e na marcha vertiginosa do sistema planetário na direção da constelação de Hércules.
Ora, naquela noite em que me sentara num sofá, enquanto minha mulher costurava, tinha acabado de ver a gravura no frontispício dum livro de Dickens. Representava um gentleman de meia-idade, com roupas do tempo da Rainha Vitória, sentado numa cadeira de espaldar, diante duma lareira, e tendo aos pés um enorme terra-nova. Aquela figura, e mais ainda o romance que terminara com tudo arrumado num epílogo ordeiro e confortável, avivaram-me a nostalgia. Desejei intensamente um epílogo e um conforto. Desejei ser aquele cavalheiro da figura. A lareira seria um excelente fator para a conquista do aconchego no recesso do lar, mas fui forçado a reconhecer que não assentava bem no trópico. O cachorro, esse sim; o cachorro fica bem em qualquer latitude. Tem cabimento diante duma lareira como numa varanda com sol e madressilvas enquanto o dono, convalescendo numa espreguiçadeira, lê um romance de Walter Scott. Talvez faltasse aquela pequenina peça na relojoaria de minha vida. Há muitos fenômenos assim, em que as coisas maiores se equilibram à custa das menores. Bastava pensar nos enormes progressos da endocrinologia para concluir que não seria nenhum absurdo esperar que minha felicidade pudesse depender dum cachorro...
— Que ideia! Cachorro suja a casa toda.
Minha mulher tinha razão. Fiquei acabrunhado descobrindo que estivera desejando um cachorro litográfico. Então, com rancor, pensei que a figura do livro fora apenas o instantâneo dum lar. No dia seguinte, certamente, o gentleman descobrira uma goteira no apartamento ou o cachorro pegara sarna.
Amolado, atirei-me no sofá, e mal sentado, com pouca luz e mau jeito, passei os olhos no jornal, sem ler, sem compreender, enquanto o relógio batia dez horas.

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