sexta-feira, junho 03, 2016

Do ceticismo à sede de verdade

Por Raissa Mariatin, “As grandes amizades”, p. 61-65.

Se temos também de renunciar a achar um sentido qualquer para a palavra verdade, para a distinção entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto, não é mais possível viver humanamente. Não queria saber de uma tal comédia. Aceitaria uma vida dolorosa, mas não uma vida absurda.”


No “Jardin des Plantes”

Numa tarde de verão passeávamos, Jacques e eu, no “Jardin des Plantes” — nome pleonástico de lugares encantadores, muito caros aos parisienses da margem esquerda. Entre muitas velhas árvores encontra-se um gigantesco cedro do Líbano “trazido por de Jussien no seu chapéu”, diz uma tabuleta; um labirinto inteiramente tranquilo; um museu de história natural; antigos laboratórios à moda francesa; ursos em fossos profundos; leões em jaulas; serpentes em vitrinas; elefantes em pagodes; focas em lagos pequenos; amorosos à sombra das árvores; e, por toda a parte, amas e crianças.
Gostávamos de passar por ali depois das aulas, quando eu ia da Sorbonne para casa a pé. Como todos frequentadores daquele jardim, estávamos familiarizados com os animais inocentes que recebiam com satisfação um pouco de pão que lhes levávamos.
Mas naquele dia passávamos sem olhar para os ursos, sem nem ouvir as focas: é que decididamente não estávamos contentes, sentíamo-nos mesmo muito infelizes.
Acabávamos de dar um balanço em tudo o que nos tinham trazido nossos dois ou três anos de estudo na Sorbonne. Inegavelmente, uma bagagem bem razoável de conhecimentos particulares, científicos e filosóficos. Mas esses conhecimentos estavam minados na base pelo relativismo dos sábios, pelo ceticismo dos filósofos.

São felizes os sábios que não raciocinam sobre a razão, que não interrogam senão o visível e o mensurável, e que vão sempre para a frente, de descoberta em descoberta.
Não éramos nós, também, com os nossos vinte anos apenas, como aqueles cultivadores do ceticismo que lançam os seus “o que sei eu?”, como uma baforada de cigarro, julgando, aliás, a vida excelente. Éramos, com toda a nossa geração, vítimas deles. De fato, embora o ceticismo seja informável, porque todas as nossas fórmulas são de qualquer modo afirmativas, mesmo quando exprimem a filosofia da dúvida, nem por isso deixa de agir e ser capaz de desagregar a vida da alma.
Embora todas as minhas recordações me ocorram à medida que as evoco, e ressuscitem com as cores frescas de outrora, aqui, confesso, não me é mais possível reviver com a mesma intensidade o profundo desalento de meu coração desfalecendo de fome e de sede da verdade.
Essa angústia metafísica, penetrando nas próprias fontes do desejo de viver, é capaz de se transformar num desespero total e de chegar ao suicídio. Acredito que nesses últimos e sombrios anos milhares de suicídios na Áustria, na Alemanha, na Itália e na França se originaram desse desespero, mais ainda do que do excesso dos outros sofrimentos suportados no corpo e na alma.
Sentiria algo de análogo se acontecesse que a França bem amada, em que pusemos toda a nossa esperança neste mundo, se tornasse — mas não, esse povo, essa mocidade que conhecemos não permitirão jamais — se tornasse um país bárbaro. País bárbaro em que a lei fosse inspirada pela crueldade do espírito e pela grosseria do coração, em que os valores evangélicos fossem ridicularizados, em que a liberdade de espírito fosse humilhada, em que reinassem o mais duro utilitarismo, o falso realismo e o instinto brutal do domínio. Não nos restaria então nada mais do que implorar ao Senhor que nos retirasse o mais depressa possível deste mundo, e dizer um Nunc dimittis[1] de desespero.
Creio que milhares de mortes são hoje causadas pela decepção total da alma que se julga enganada por ter tido fé na humanidade, acreditado na força triunfante da verdade e tia justiça, da bondade e da piedade e tudo o que sabemos ser o liem.

A questão de Deus

É uma angústia desse gênero que eu vivi então. Mas pouco depois foi tão misericordiosamente curada, que me é difícil, no meio de tanta doçura e felicidade, senti-la de novo, em toda a sua amargura. Certamente outras angústias vieram, outras dores, por vezes imensas, mas essa angústia nunca mais a senti. No entanto, nunca a esqueci: ninguém se esquece das portas da morte.
Naquele dia tínhamos chegado à seguinte conclusão: se a nossa natureza era tão infeliz que não chegava a possuir senão uma pseudo-inteligência, capaz de tudo menos da verdade, se quando se julgava a si mesmo devia humilhar-se até esse ponto, não podíamos, pois, nem pensar nem agir dignamente. Tudo se tornava então para nós absurdo, e inaceitável — e nem ao menos sabíamos o que em nós se recusava assim a aceitar.
— Não podemos viver de acordo com preconceitos, bons ou maus, temos necessidade de pesar-lhes a justiça e o valor — mas qual a medida? Qual a medida de todas as coisas?
— Quero saber se ser é um acidente, um benefício ou uma desgraça, desprezo a resignação e a renúncia da inteligência, de que temos tantos exemplos em torno de nós.
Também não era nosso desejo querer cegamente; esse “sublime” absurdo nos parecia uma monstruosidade e nos causava horror.
O que nos salvou então, o que fez de nosso desespero real um desespero ainda condicional, foi justamente o nosso sofrimento. Essa dignidade de espírito, apenas consciente, salvou o nosso espírito pela presença de um elemento irredutível ao absurdo, a que tudo nos queria levar.
Já tinha chegado a pensar que não acreditava mais em Deus; não lutava mais contra o ateísmo, persuadida, ou melhor, vencida por tantos e tantos argumentos apresentados como “científicos”. E a ausência de Deus despovoava o universo.
— Se temos também de renunciar a achar um sentido qualquer para a palavra verdade, para a distinção entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto, não é mais possível viver humanamente.
Não queria saber de uma tal comédia. Aceitaria uma vida dolorosa, mas não uma vida absurda. Jacques pensara durante muito tempo que ainda valia a pena lutar pelos pobres, contra a escravidão do “proletariado”. E a sua própria generosidade o tinha amparado. Mas agora estava tão decepcionado quanto eu.
— Esta vida que eu não escolhi, também não a quero viver, mas trevas, pois a comédia é sinistra: representa-se num teatro de lágrimas e de sangue.
O nosso entendimento perfeito, a nossa própria felicidade, toda a doçura do mundo, toda a arte dos homens não eram suficientes para nos levar a admitir sem razão — em qualquer sentido que se tome a expressão — a miséria, a desgraça, a maldade dos homens. Ou a justificação do mundo, que não podia ser feita sem um conhecimento verdadeiro, era possível, ou então a vida não merecia nem mais um instante de atenção.
— Mesmo que não houvesse no mundo senão um só coração que padecesse certos sofrimentos, um só corpo que conhecesse a agonia da morte, isso exigiria uma satisfação. E mesmo que só houvesse o sofrimento de uma única criança; e mesmo que os animais fossem os únicos a sofrer na terra, tudo isso exigiria uma satisfação.
— Em caso algum um estado de coisas não é aceitável sem uma luz verdadeira quanto à existência. Se uma tal luz é impossível, a existência também é impossível, e não rale a pena viver.
Se... Se... e íamos acrescentando estrofes sombrias e mais estrofes sombrias a esse canto de nossa angústia. E na nossa alma havia sempre esse condicional. Havia sempre essa esperança pequenina, essa porta entreaberta para o caminho do dia.
Antes de deixar o “Jardin des Plantes” tomamos uma resolução solene, que nos acalmou: a de olhar de frente, e até suas últimas consequências — tanto quanto isso estivesse em nosso poder — os dados do universo infeliz e cruel, que tinha como única luz a filosofia do ceticismo e o relativismo.
Nada queríamos aceitar: disfarce algum, lisonja alguma dos que estavam adormecidos na sua falsa segurança. O epicurismo que propunham era um logro, tanto quanto o triste estoicismo, e o estetismo — passatempo.
Também não queríamos considerar que tudo havia sido dito, só porque a Sorbonne tinha falado. O mundo universitário daquele tempo era tão hermeticamente fechado, sobre si mesmo, que só em pensarmos assim já tínhamos algum mérito.
Decidimos, pois, por mais algum tempo, entregar-nos ao desconhecido, íamos considerar a existência como uma experiência a fazer, com a esperança de que, em resposta ao nosso apelo veemente, o sentido da vida nos fosse revelado. Esperávamos que novos valores se tornassem tão claros para nós que arrancariam a nossa adesão total, e nos libertariam do pesadelo de um mundo sinistro e inútil.
Se essa experiência não desse certo, a solução seria o suicídio — o suicídio antes que se tivesse acumulado a poeira dos anos, antes que as nossas forças frescas ficassem gastas. Queríamos morrer por um ato livre de recusa, já que era impossível viver conforme à verdade.




[1] Início da fala de Simeão na Apresentação de Jesus no Templo: “Agora despedes, Senhor, em paz a teu servo, segundo a tua palavra, pois já meus olhos já viram a tua salvação” (Lc 2,29-32).

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