sexta-feira, junho 17, 2016

A Universidade e a formação do homem

Por Roberto Saboia de Medeiros, S. J., na Introdução de “Origem e progresso das universidades”, de Cardeal John Henry Newman.

Uma Universidade é matriz de homens, é o caminho do homem enquanto ser intelectual. A natureza de uma Universidade consiste em cultivar o saber por si mesmo, sem visar a nada de ulterior ao saber, sem visar nada utilitário, nem mesmo de belo embora conhecendo e reconhecendo as limitações do saber humano.


O Cardeal John H. Newman, um dos maiores luminares da Igreja, encarregado pela Hierarquia da Irlanda, lançou em Dublin, por volta de 1850, os fundamentos de uma Universidade Católica. Foi ele, que, ocupado neste trabalho, escreveu os “nove discursos” sobre ensino universitário, e compôs vários outros escritos sobre a natureza e as funções de uma Universidade. Foi ele que delineou nesses mesmos escritos as relações entre as diversas ciências e a teologia. Newman escreveu quase há um século, mas relido agora parece de ontem. A visão do monumental pensador atingindo a essência da Instituição captou a verdade integral. Só os acidentes dançam. A substância se concentra em perfeição. Exporemos os seus pensamentos fundamentais, mostrando apenas de cá e de acolá, as ramificações destes pensamentos, numa filosofia concreta e da ação.
No tempo de Newman levantavam-se contra o conceito e a natureza de uma Universidade Católica, as mesmas objeções que ainda se ouvem agora.

Ciência é ciência, dizem uns. Que tem que ver a religião com a ciência? Cada coisa no seu lugar. Como se pode conceber um direito católico? Ou uma engenharia ou uma matemática católica? Outros fazem coro ponderando: “é natural que a Igreja queira ter os seus estabelecimentos de ensino superior: mas como vai poder resistir à concorrência das Universidades do Estado que sempre contam com maiores verbas, que já são mais antigas, que já possuem um equipamento com o qual uma instituição nova nem pode pensar em competir. Não era melhor que a Igreja aconselhasse a seus filhos a entrar por concurso nessas Universidades leigas e aí, nas cátedras, fazer o seu apostolado?”
Entram aqui a falar os de um grupo diverso. “A Igreja sabe o que faz. Já que Ela quer uma Universidade Católica, está certo. Mas qual a diferença? Os programas serão mais ou menos os mesmos. Porém; acrescentaremos aulas de religião, ou uma inteira faculdade de teologia. Deste modo, ao lado do professor de sociologia, de medicina legal, de química analítica, de doenças tropicais, haverá o professor de Sagrada Escritura, o de história eclesiástica, o de teologia fundamental”. De modo que no conceito dessas pessoas uma Universidade Católica seria um estabelecimento onde além de todas as partes das outras Universidades, haveria uma parte de sobrecarga, a Faculdade de Teologia.
Pois bem. Mesmo desta última concepção podemos afirmar que os seus fautores deixaram de apreender e compreender o que seja uma Universidade Católica.
A começar do último modo de ver.
Acrescentar a todas as matérias de uma faculdade, mais religião, ou a todas as faculdades de uma Universidade, mais a teologia não é o distintivo de uma Universidade Católica. Pode acontecer perfeitamente que, (depois de saído da aula o professor de religião), aí entre o de sociologia, por exemplo, e ignore a influência social da religião, se não estiver ainda amarrado a teses durkheimmianas ou a um experimentalismo positivista. Pode acontecer que na Faculdade Teológica se esteja ensinando o tratado da Santíssima Trindade, ao passo que na Faculdade de Direito, o professor de filosofia do direito, esteja pontificando sobre a trindade hegeliana. Não basta, portanto, justapor o ensino da religião aos outros ensinos. Qualquer Universidade que mereça este nome há de incluir uma faculdade teológica e o ensino religioso. Pois uma Universidade é a instituição que professa comunicar um saber universal e abranger todos os ramos de conhecimento. Deixar de lado um, e um tão vasto como religião e a teologia já não é mais ser Universidade. É ficar sendo destes grandes estabelecimentos que nos legaram o Racionalismo e o Cientificismo, tão limitados em seu escopo e tão pouco capazes de contribuir na formação do homem todo, transformados em fábrica de profissionais, unilateralizados e sem humanismo, preparando homens que se perdem no campo das ideias gerais, alguns até que têm pavor de pensar, embora sejam prodígios de vivacidade exclusivamente técnica, utilitária, específica, abafados dentro do próprio horizonte; sem um poder de síntese, sem uma visão de conjunto, sem o dote que consiste em estar acima do próprio saber.
Porque uma Universidade e uma faculdade universitária é matriz de homens, é o caminho do homem enquanto ser intelectual. A natureza de uma Universidade consiste em cultivar o saber por si mesmo, sem visar a nada de ulterior ao saber, sem visar nada utilitário, nem mesmo de belo embora conhecendo e reconhecendo as limitações do saber humano. A inteligência vale por si mesma. A função, pois, de uma Universidade é cultivar de tal modo a inteligência que cada ciência seja vista como parte, e de tal sorte ainda que o homem alcance, graças aos exercícios, ao estudo, aos conhecimentos parcelados, um “olhar superior”. (...)
Uma Universidade não é um Enciclopedismo. Não é o local onde se aprende um pouco de tudo, onde cada dia se somam aos programas novas matérias. Não. Mas tendo professores e faculdades para todas as matérias, não pretende ensinar tudo, mas comunicar os pontos de partida, os princípios, as articulações entre parte e parte, de modo a que uma sabedoria domine as particularidades de cada matéria ou de cada ciência. Aprender as ciências é possível nos livros. Captar a alma da ciência só é possível no intercâmbio de professor e aluno. Não há livro, nem há esforço autodidata que substitua, aquela entonação da voz, aquela resposta à pergunta que justamente na hora aflorou à mente do aluno, aquelas conversas prolongadas depois das aulas em que particularidades se esclarecem, o olhar, o gesto, até o meneio da cabeça: nada disto fazem os livros, e isto é o que dá uma Universidade, onde os vários professores porfiam cada um em seu ramo em que as ciências por meio dos professores se completam continuamente, em que laboratórios colaboram entre si e todo este conjunto está convergindo sempre ao mesmo ponto, à cultura do saber pelo saber. (...)
O fim de uma Universidade é uma nova espécie de higiene, ou melhor, de saúde mental, graças à qual o homem se torna capaz de ver o universal no particular, de adaptar soluções gerais aos casos de todo o dia, de perceber as conexões das coisas e as suas desembocaduras no estuário dos acontecimentos futuros.
Uma Universidade não mira por essência ou natureza, nem à utilidade professional, não é um ninho de técnicos, nem por outro lado é por essência uma sementeira de virtudes, ou uma mestra de noviços morais. Não há dúvida nenhuma de que o saber tem em si mesmo um poder e como tal é utilizável na vida prática. Isso, porém, já é consequência do saber, não é o saber nem o fito do ensino universitário. É inegável também que sem que o saber seja virtude e o erro vício, no entanto uma mente esclarecida é a melhor condição de vida moral elevada. Também aqui vemos uma consequência: não a natureza. (...)
Compreendida por esta forma, a natureza de uma Universidade, está visto que ela não pode excluir saber algum, ciência alguma. Não que os alunos vão seguir toda a espécie de ciência, mas que no ambiente em que respiram, todas as ciências direta ou indiretamente hão de contribuir para a ampliação e arejamento da mente humana. Cada ciência fora de uma Universidade perde o caráter equilibrado que a Universidade lhe comunica. “Tomemos, diz Newman, um professor de Direito, ou de Medicina, ou de Geologia, ou de Economia Política, em uma Universidade, e fora dela. Fora de uma Universidade correrá o perigo de ser absorvido e estreitado por sua pesquisa e de dar aulas que nada mais são do que as aulas de um jurista, um médico, um geólogo, um economista; ao passo que dentro de uma Universidade, saberá exatamente qual a sua posição e a de sua ciência, abeira-se desta como que de uma altura, tem um panorama do saber todo, algo o livra de extravagâncias pela mesma rivalidade dos outros estudos, recebe destes uma iluminação especial, uma largueza de vistas, uma liberdade e autodomínio, e assim lida com a própria matéria com uma visão e desenvoltura que não pertence à matéria em si, mas que é derivada da educação universitária.” (Idea, pg. 166-167).
É claro pois que nesta orquestra de ciências, de estudos, de disciplinas, a Teologia não pode faltar, sob pena de se não tratar mais de uma verdadeira Universidade. (...) O ensino das diferentes faculdades pode ser que esteja divorciado entre si; — o que mostra que não basta, haver uma faculdade teológica, mas o que mostra que embora não baste, é preciso, é condição. Além desta condição para que uma Universidade se diga católica, outra deve haver, mas esta não deve faltar.
Tal é uma Universidade Católica. Completamente Universidade e completamente católica. Não apenas um púlpito para ensinar religião. Mas uma vida em que a religião é a alma. A livre investigação científica se equilibra com os estímulos das verdades reveladas. E as verdades reveladas ficam melhor entendidas com as esporas da livre investigação científica. É o ideal de Leão XIII quando dizia que a Igreja não tem medo da verdade. Porque de fato Jesus já havia dito que a Verdade é o que liberta; a que livra de tabus, de prevenções, e de palavras infundadas. (...) A fé não vem explicar fenômenos naturais, nem engrenagens psicológicas, nem soluções econômicas. Todo este vasto campo que a fé estimula a ciência a percorrer, agindo por si mesma: tratando ela da pessoa humana, da Verdade Eterna, das Últimas Coisas. A Verdade liberta, a Verdade desencadeia a tendência a conquistar o mundo para subir a Deus, a espiritualizar a terra não suprimindo-a, mas impregnando-a de Caridade.

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