sexta-feira, maio 20, 2016

O paradoxo sobre a Idade Média

Por Régine Pernoud, “Idade Média: o que não nos ensinaram”, p. 9-16.
Em “Idade Média: o que não nos ensinaram”, a medievalista Régine Pernoud destrói os chavões que aprendemos sobre a época, e recupera o verdadeiro esplendor da injustamente chamada “Idade das Trevas”.

a ignorância a respeito da idade média

Era encarregada do Museu de França nos Arquivos Nacionais, há pouco tempo, quando chegou uma carta perguntando: “Poderia me informar a data exata do tratado que marca oficialmente o fim da Idade Média?”. Havia ainda uma pergunta complementar: “Em que cidade se reuniram os diplomatas que prepararam esse tratado?”.
Não tendo guardado a carta, não posso senão dar o conteúdo dela, mas garanto sua exatidão; o autor pedia uma resposta rápida, pois, dizia ele, precisaria desses dois dados para uma conferência que pretendia fazer em data muito próxima.
Algumas vezes me surpreendi imaginando, como distração pessoal, esta conferência. Não havia dificuldade: bastava colocar de ponta a ponta o que se lê, o que se vê, o que se ouve diariamente sobre a “Idade Média”[1]. Ora, se o medievalista pretende compor um apanhado de tolices sobre o assunto, ficará satisfeito com os exemplos da vida cotidiana. Não há dia em que não encontre uma reflexão do tipo: “Não estamos mais na “Idade Média”, ou “É um retomo à “Idade Média”, ou “É uma mentalidade medieval”. E isto nas circunstâncias mais diversas: para justificar as reivindicações do M.L.F.[2] ou para lastimar as consequências de uma greve do E.D.F.[3] ou quando desejamos emitir opiniões gerais sobre demografia, analfabetismo, educação...

Isto começa cedo: lembro-me de ter tido ocasião de seguir os estudos de um sobrinho de sete ou oito anos, em um destes cursos em que os pais são admitidos para poderem depois fazer com que a criança estude. Na hora da lição de História, ocorreu textualmente o seguinte:
Professora: Como se chamavam os camponeses na Idade Média?
Coro da turma: Eles se chamavam servos.
Professora: Que é que eles faziam, que é que eles tinham?
Turma: Eles tinham doenças.
Professora: Que doenças, Jerônimo?
Jerônimo (sério): Peste.
Professora: Que mais, Emanuel?
Emanuel (entusiasmado): Cólera!
Professora: Vocês sabem muito bem História. Passemos à Geografia...
Como isto se passou há muitos anos e o sobrinho em questão já atingiu a maioridade, de acordo com o Código Civil, acreditei que as coisas tivessem mudado. Mas eis que há alguns meses (julho de 1975), passeando com a netinha de uma de minhas amigas (Amélia, de 7 anos), ela me disse, alegremente:
— Sabe, na escola eu estou estudando a Idade Média.
— Muito bem. E como era a Idade Média? Conta-me.
— Bem, havia os senhores (ela procura um pouco antes de encontrar a palavra difícil...) senhores feudais. Eles lutavam o tempo todo, e com seus cavalos iam aos campos dos camponeses e estragavam tudo.
Uma casquinha de sorvete chamou sua atenção e acabou com sua entusiástica descrição. Isto me fez compreender que, em 1975, ensina-se a História exatamente como me ensinaram, há meio século ou mais. Assim caminha o progresso! (...)

o conhecimento geral sobre o tema

Até época bem recente, era exclusivamente por engano ou, digamos, por acaso, que se tomava contato com a Idade Média. Era preciso ter curiosidade pessoal e, para despertar essa curiosidade, um impacto, um encontro. Um portal românico, uma flecha gótica, durante uma viagem; um quadro, uma tapeçaria, em qualquer museu ou exposição; suspeitava-se, então, da existência de um mundo até então mal conhecido. Mas, passada a emoção, como conhecê-lo melhor? As enciclopédias ou dicionários que se podiam consultar não continham mais do que insignificâncias ou dados desprezíveis sobre o período; os trabalhos eram ainda raros e os dados, geralmente contraditórios. Referimo-nos às obras de vulgarização, acessíveis ao público médio, pois, é evidente que os de erudição eram abundantes há muito tempo. Para atingi-los, havia toda uma série de obstáculos a vencer: de início, o próprio acesso às bibliotecas que os guardavam, depois a barreira da linguagem erudita, na qual a maioria deles é redigida.
Tanto, que o nível geral pode ser calculado pela pergunta que serviu de base a um encontro do Círculo Católico de intelectuais franceses, em 1964: “A Idade Média era civilizada?”. Sem a menor ironia: podemos ter certeza de que se tratava de intelectuais, na maioria universitários, e universitários conscientes. Os debates ocorreram em Paris, na Rua Madame. Esperamos, para tranquilidade moral dos participantes, que nenhum precisasse passar diante da Notre-Dame de Paris para voltar à casa. Poderiam sentir certo mal-estar. Mas não, fiquemos tranquilos: de modo geral, o universitário consciente tem certa incapacidade física para ver o que não está de acordo com as noções que seu cérebro conservou. De modo algum veria a Notre-Dame, mesmo que seu caminho o conduzisse à Praça do Parvis.
Hoje está tudo diferente. A própria Praça do Parvis, aos domingos e no verão, diariamente, é tomada por uma multidão de moços e menos moços que escutam cantores e músicos, e que, às vezes, dançam enquanto os ouvem; ou que, sentados na grama, apenas contemplam a catedral. A maioria não se contenta em admirar o exterior: Notre-Dame de Paris reencontrou as multidões medievais, todos os domingos, quando suas portas se abrem de par em par, na hora do concerto. Multidões recolhidas, admiradas, para quem o intelectual de 1964 faria o papel de um animal de Jardim Zoológico (à moda antiga, certamente).
As razões desta mudança? São múltiplas. A primeira, e mais imediata, é que atualmente todos se deslocam. Circula-se muito e em todas as direções. O medievalista não pode deixar de acrescentar: “como na Idade Média”, porque, considerando-se os meios de locomoção modernos, o turismo desempenha atualmente o papel de peregrinação de outras épocas. Voltamos a viajar precisamente como nos tempos medievais.

o paradoxal apreço pelas construções medievais

Ora, nota-se que, na França, apesar de vandalismos mais graves e metódicos que em outros lugares, os vestígios da época medieval são mais numerosos do que os de todas as outras épocas reunidas. É impossível viajar aqui sem ver um campanário que sirva para evocar o século XII ou o XIII. É impossível galgar uma colina sem encontrar uma capelinha e nos indagarmos por que milagre ela pôde aparecer num recanto tão selvagem e tão distante. Uma região como Auvergne não tem um só museu importante, mas, em vez disso, que riqueza entre Orcival e Saint-Nectaire, Le Puy e Notre-Dame-du-Port, em Clermont-Ferrand! Estas regiões, que, no século XVII, intendentes ou governadores consideravam como irritantes exílios, foram, antigamente, habitadas por uma população tão numerosa que pôde realizar tais maravilhas, tão instruída que foi capaz de concebê-las? O papel dos mosteiros ou cultura popular, pouco importa. Onde se recrutavam os monges, se não era entre o povo em geral e em todas as camadas sociais, para usar a linguagem do século XX? E, além disso, se Aubazine foi um convento cisterciense, não encontramos simples paróquias rurais como Brinay ou Vicq (atualmente, Nohant-Vicq) revestidas de afrescos românicos cuja audácia parece surpreendente ainda hoje?
O afluxo de turistas é habitual nos edifícios da Idade Média, atualmente. O Monte Saint-Michel recebe mais visitantes que o Louvre. Beaux-de-Provence vê estenderem-se filas de carros de onde se sobe em bandos para visitar a velha fortaleza. Fontevrault, novamente tomada acessível aos visitantes, não é suficientemente ampla para acolher a todos; a Abadia de Sénanque, embora apenas se ouça o canto dos monges através dos espetáculos audiovisuais (notáveis), tem uma afluência ininterrupta. Em suma, poder-se-ia enumerar todas as regiões da França, desde as festas medievais de Beauvais, nos confins da Picardie, até às de Saint-Savin, nos confins dos Pirineus; sempre o mesmo entusiasmo por uma redescoberta recente, sem dúvida, mas geral.
(...)
Este é um passado bem tumultuado que agora desperta indignação. Como causa espanto esta estranha mania que transformou mosteiros, que não foram destruídos, em prisões e quartéis. E há fatos que permitem calcular a amplitude do movimento, a rapidez com que isto se passou. Porque há cerca de cem anos Victor Hugo, em visita ao Monte Saint-Michel, transformado em prisão, exclamava: “Julga-se ver um sapo num relicário”[4]. E eu, que escrevo, na minha infância, pude presenciar o exato momento em que tentavam destruir uma destas obras; pequenas janelas foram abertas no muro que, em Avignon, transformou em caserna a grande sala do Palácio dos Papas. Hoje, quando até Fontevrault foi finalmente restaurada, quem admitiria que o Monte Saint-Michel ou o Palácio dos Papas pudesse tomar-se caserna ou prisão? Sobram ainda, é verdade, alguns quartéis de bombeiros da Rua de Poissy, em Paris, mas todos sabem que Paris continuará sempre atrasada em relação “à província”! (...)
Basta dizer que o francês médio, hoje, não aceita a qualificação de “deformados e desajeitados” dada às esculturas de um portal românico, ou de “aberrantes” às cores dos vitrais de Chartres. Seu senso artístico está suficientemente maduro para que julgamentos indiscutíveis, há trinta anos, lhe pareçam definitivamente superados. Entretanto, existe uma defasagem, que talvez tenha origem em modos de pensar ou no vocabulário, entre a Idade Média que ele admira sempre que se apresenta ocasião, e o que encerra para ele o termo Idade Média.[5]
Defasagem que marca a solução de continuidade entre o que ele pôde constatar diretamente e o que lhe escapa por força de acontecimentos, porque é preciso um conhecimento que ninguém ainda lhe deu, e que só se obtém com um estudo inteligente de História, nos bancos escolares.
Idade Média significa sempre: época de ignorância, de brutalidade, de subdesenvolvimento generalizado, embora seja a única época de subdesenvolvimento durante a qual construíram- se catedrais! Isto porque as pesquisas eruditas feitas nos cento e cinquenta anos, ou mais, em seu conjunto, ainda não atingiram o grande público.
Um exemplo é surpreendente. Há pouco tempo, um programa de televisão apresentava como histórica a frase famosa: “Matai-os todos, Deus reconhecerá os seus”, durante o massacre de Béziers, em 1209. Ora, há mais de cem anos (exatamente em 1866), um erudito demonstrou, acima de qualquer dúvida, que a frase não poderia ter sido pronunciada já que não a encontramos em nenhuma das fontes históricas da época, mas apenas no Livro dos Milagres, Dialogus Miraculorum, cujo título fala por si mesmo sobre o que pretende dizer, composto aproximadamente sessenta anos depois dos fatos, pelo monge alemão Cesário de Heisterbach, autor provido de imaginação ardente e bastante suspeito quanto à autenticidade histórica. Desde 1866, nenhum historiador, é inútil dizê-lo, levou em conta o famoso “Matai-os todos”; mas os escritores de História o utilizam ainda e isto basta para provar quanto as descobertas científicas, neste caso, custam a penetrar no domínio público.



[1] “Idade Média” deveria aparecer sempre entre aspas; adotaremos a expressão apenas para nos submeter ao uso corrente.
[2] Mouvement Liberateur Féminin (M.L.F.).
[3] Electricité de France (E.D.F.).
[4] “Julgava-se ver um touro em loja de miniatura.” (N. do T.)
[5] “Execuções de uma selvageria quase medieval”, escrevia, recentemente, um jornalista. Saboreemos este quase. Certamente, no século dos campos de concentração, dos fomos crematórios e do Goulag, como não ficar horrorizado com a selvageria dos tempos em que se esculpiam os portais de Reims ou os de Amiens!


Este texto foi editado para publicação em meio eletrônico e melhor aproveitamento do leitor.

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