sexta-feira, maio 27, 2016

O mundo religioso de Dostoievski

Por Romano Guardini, “O mundo religioso de Dostoievski”, p. 3-10.

"Os sete capítulos desta obra propõem-se versar a existência do fenômeno religioso e a sua problemática tal como se nos apresentam nas grandes criações de Dostoievski: nos romances Rodion Raskolnikov, O Idiota, Os Possessos, O Adolescente e Os Irmãos Karamazov. Gostaria, primeiramente, de fazer uma pequena introdução ao assunto."


 Todos os que procuram analisar o fenômeno religioso nas obras de Dostoievski logo percebem de que escolheram para assunto do seu trabalho nada menos do que todo o mundo daquele autor. Nas suas obras não se encontra uma única personagem importante ou um acontecimento de relevo que, no seu contexto, não tenha adquirido relevância por intermédio de uma maior ou menor intervenção do elemento religioso. As personagens de Dostoievski são condicionadas por forças e motivos de ordem religiosa que vão determinar as suas verdadeiras decisões. Mais do que isso, o seu mundo como «mundo», a interdependência das suas realidades e valores e toda a estrutura em que os acontecimentos se processam têm, no fundo, uma base religiosa.

Apercebi-me do que significa querer compreender este «mundo», quando, no verão de 1930, preparava uma palestra de duas horas, e debalde me esforcei para dominar a totalidade do assunto num curto espaço de tempo. O mundo dos cinco grandes romances — especialmente quando se consultam as suas outras obras, ainda que de passagem — é de uma riqueza surpreendente. Ao longo de toda a obra as personagens estão condicionadas ao destino e aos símbolos e, se bem que passado algum tempo se repare que determinados motivos no esboço das personagens, determinadas formas básicas no desenrolar dos acontecimentos e situações e determinadas linhas mestras do pensamento em relação ao significado do mundo e da existência humana nunca deixam de estar presentes, estes momentos ordenados pouco mais são do que guias de segunda categoria numa floresta em contínuo crescimento e expansão.
Gostaria, portanto, de explicar como procurei orientar-me. Tornar-se-á, assim, mais clara a relação existente entre os capítulos desta obra.
Em primeiro lugar, era necessário investigar a concepção de Dostoievski em relação ao homem. A conclusão tirada foi a de que aos habituais conceitos de inteligência, intuição, fantasia, vontade, ação, criatividade, sensação e sofrimento se deve dar um sentido muito mais lato que o habitual, porque, no caso presente, essas formas-atos não existem num estado puro; pelo contrário, em cada uma delas se incluem as outras. E tanto assim é que se progride muito mais quando não se vai em demanda dos atos individuais do homem, mas sim das estruturas que constituem todo o seu ser: portanto, as vidas física e metafísica, o coração e a alma, as vidas do sonho e do símbolo, a vida do espírito e a vida psíquica.
A questão da forma como são construídas as personagens de Dostoievski trouxe-nos importantes esclarecimentos, sobretudo se compararmos a estrutura dessas mesmas personagens com a estrutura ocidental que conhecemos; a análise do confronto de personalidades e da dependência do indivíduo em relação ao todo foram também de capital importância. Verifica-se, com surpresa, como essas estruturas pessoais são amplas, complexas, lábeis, sobretudo elásticas, e adquirem-se assim os mais importantes esclarecimentos para a compreensão das relações existentes entre os romances e, além disso, para a assimilação dos problemas da estrutura e situação de perigo em que a personagem incorre.
A questão passou, então, a abranger os vários campos de cultura e existência e sua interligação. Entre outras, chegou-se à conclusão de que, no mundo de Dostoievski, as pedras propriamente basilares da vida cotidiana, começando pelo trabalho, parecem não estar presentes. Assim, os homens parecem estar expostos de uma maneira particular ao destino e às forças religiosas.
Houve depois que analisar as realidades básicas da estrutura existencial, levantar perguntas como estas: o que significam no mundo de Dostoievski a natureza, o «todo», o sol, as árvores, as plantas, a terra e os animais? O que é o povo? O que são a mãe, a criança, o rapaz e a moça? Como encara Dostoievski o adulto e o velho? Tem conhecimento de personalidade emancipada e de como se forma? Qual o significado da dor e do mal nas suas diversas formas: doença, pobreza, alcoolismo, sofrimento psíquico, discriminação social, loucura e demência? O que é o mal — desde pecado, crime, depravação, baixeza e infâmia até ao mal como poder, até ao satanismo? Não se poderão igualmente omitir as perguntas quanto ao fantasmagórico...
A partir daí uma nova direção se divisou em relação aos mais simples e simultaneamente mais intensos fenômenos da existência: a vida, o ser, o tempo e a eternidade. Também esteve presente a problemática do limite da existência: morte, transitoriedade, o nada.
Foram consideradas ainda as crises da existência formadas pelo tédio, cansaço, asco, medo, desespero, apatia, desamparo...
O rumo da investigação voltou-se por fim para os valores existentes no mundo de Dostoievski, principalmente os mais nobres: honra, nobreza, franqueza, inocência, liberdade, amor, humildade e alegria, nos quais se enquadra tudo o que pertence a uma esfera superior — a luz, o bom, o belo, a unidade e a tranquilidade.
A tudo isto associou-se a questão da problemática religiosa que conduziu à tentativa de encontro de uma fenomenologia dos atos e formas de existência religiosas, representados na teia da «existência retrógrada».
Verificou-se assim que todos os fatores anteriormente descritos, quando de qualquer forma se aprofundavam, estavam tanto mais saturados de violência religiosa quanto mais próximos se encontravam do elementar, de tal modo que realidades como o sol, a terra, as árvores e os animais; fatores existenciais, como a alegria, a doença e o sofrimento; conceitos genéricos como vida e ser; inclusive o aparecimento de limiares como morte, transitoriedade, o nada, a partir de certo ponto —atingido rapidamente — eram, na íntegra, religiosos.
A abundância de personagens e a problemática vigente em toda a obra tornavam extremamente complexa a análise, tendo sido necessário um fio condutor e ordenador. Julguei encontrá-lo na relação das personagens com a terra, o povo e os poderes básicos da existência. Esta linha de relação começa com personagens que se encontram inteira e despercebidamente nessa dependência. Conduz-nos em seguida àqueles em quem esta ligação é consciente, se estrutura e se desagrega em tensões, até chegar àqueles em quem se transforma inteiramente em «cultura», sem, no entanto, perder a sua substância. É este o caminho seguido nos quatro primeiros capítulos do presente livro e que começam por se referir ao povo e suas figuras, passando em seguida às duas Sônias, depois aos homines religiosi e por fim a Aliocha Karamazov.

Serão abrangidos, porém, pela mesma linha, as personagens em quem essa mesma substância básica é posta em risco, diminuída, distorcida, destruída; momentos isolados dessa substância são levados a extremos e encarados sob um aspecto excessivamente doutrinal.

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