terça-feira, maio 31, 2016

O homem - II

Por J. M. Bochenski, “Diretrizes do pensamento filosófico”, p. 79-88.


 a essência humana

Como se pode ver, trata-se aqui de duas questões diferentes: existe no homem alguma coisa que seja essencialmente distinta de tudo o que se encontra nos outros animais? E, como se relaciona esta realidade com as outras partes que compõem o ser humano?
Sobre o homem existe ainda outra questão fundamental que foi posta em grande relevo pela filosofia dos últimos decênios, isto é, pela assim chamada filosofia da existência ou existencialismo. Consideramos já diversas peculiaridades do homem, e todas lhe conferem uma certa dignidade e poder, graças às quais ele está acima de todos os animais. Mas o homem não é só isto. É igualmente — e isto graças às mesmas propriedades — um ser inacabado, inquieto e profundamente miserável. Um cão, um cavalo come, dorme e é feliz; não tem outra necessidade que não a satisfação de seus instintos. Com o homem é diferente: sempre cria novas necessidades e nunca está satisfeito. Uma invenção bem própria do homem é, por exemplo, o dinheiro; deste, o homem nunca tem o suficiente. Parece que, pela sua própria natureza, o homem está determinado a um progresso sem fim e que só o infinito o pode saciar.
Mas ao mesmo tempo o homem — e só ele — está consciente de sua limitação e, sobretudo, de sua morte. Essas duas propriedades — desejo do infinito e consciência de sua limitação — produzem dentro do homem uma tensão em razão da qual ele aparece para si mesmo como um trágico enigma. Parece-lhe que existe para uma coisa que de modo algum pode alcançar. Qual é então o sentido da sua existência?

Para dar uma solução a esse enigma envidaram todos os seus esforços os melhores pensadores, desde Platão. As soluções que nos propõem podem ser resumidas em três.
A primeira, muito espalhada durante o século dezenove, afirma que a necessidade do infinito no homem é satisfeita pela identificação do mesmo com alguma coisa mais ampla, mais universal, e esta seria a sociedade. Estes filósofos dizem que pouco significa o sofrimento e a frustração dos indivíduos; a sociedade, o universo continuará e chegará à sua perfeição. Sobre esta solução falaremos mais tarde. Agora só queremos dizer que esta solução se afigura como insustentável para a maioria dos pensadores modernos, porque, em vez de solucionar o enigma, ela nega os fatos mais inconcussos, isto é, que o homem individual deseja para si, como indivíduo, e não para outros, o infinito. À luz da própria morte tal teoria aparece como um som oco e sem sentido,
A segunda solução — muito espalhada hoje em dia entre os existencialistas — afirma de seu lado que o homem não tem sentido algum. É um erro da natureza, uma criatura falha, uma paixão inútil, como Sartre escreve. O enigma da existência humana não pode ser resolvido; é um absurdo. Seremos eternamente uma questão trágica para nós mesmos.
Mas existem também filósofos que, seguindo Platão, não querem tirar uma tal conclusão. Não acreditam num absurdo tão completo. Dizem que deve haver uma solução para o enigma do homem.
Em que pode consistir esta solução? Em que o homem pode alcançar de algum modo o infinito. Mas isto não é possível durante a vida neste mundo. Se, portanto, existe uma solução para o problema do homem, esta se deve achar fora da natureza, fora do mundo. Mas como? A imortalidade da alma é demonstrável, segundo muitos filósofos depois de Platão; outros a afirmam sem acreditar numa demonstração rigorosamente científica. Mas a imortalidade da alma não fornece, tão pouco, a resposta para a questão. Não é possível entrever de que modo o homem na vida além-túmulo possa alcançar o infinito.
Platão disse uma vez que a resposta definitiva a esta questão só poderia ser dada por um deus, por uma revelação que viesse do além.
Mas isto já não é mais filosofia, senão religião. O pensamento filosófico aqui, como em outros pontos, põe a questão — leva-nos até a fronteira para além da qual o homem só pode contemplar a impenetrável escuridão, onde não brilha nenhuma luz para sua razão.

Este texto foi editado para publicação em meio eletrônico e melhor aproveitamento do leitor.

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