sábado, maio 28, 2016

O homem - I

Por J. M. Bochenski, “Diretrizes do pensamento filosófico”, p. 79-88.

Meditemos hoje sobre o homem. Há neste terreno tantos problemas filosóficos que nem sequer podemos nomear todos. Nossa meditação se restringirá, portanto, a alguns dentre eles. Antes de mais nada — e na companhia dos grandes pensadores do passado e de nossa época — poremos a questão: o que é o homem? O que sou eu?
Nesta questão, como em outras, o melhor método será começar com a constatação das propriedades do homem sobre as quais não há dúvida. Essas propriedades podem ser postas sob dois títulos: primeiro, o homem é um animal; segundo, é um animal especial, único.

o homem é um animal

Antes de mais nada, o homem nos aparece como um animal e possuidor de todas as características de um verdadeiro animal. É um organismo, tem órgãos para os sentidos, nasce, cresce, alimenta-se, move-se, tem instintos poderosos, como o instinto de conservação, de luta, o instinto sexual e outros, como todos os animais. Se comparamos o homem com os animais superiores constatamos, sem sombra de dúvida, que ele é uma espécie entre as outras espécies de animais. Não há dúvida que os poetas exaltaram os sentimentos humanos com a mais maravilhosa das linguagens. Mas conheço cães cujos sentimentos, parece-me, são mais belos e profundos que os de muitos homens. Talvez nos desagrade, mas devemos conceber que pertencemos a uma mesma família, e que os cães e as vacas são, por assim dizer, nossos irmãos e irmãs mais jovens. Para afirmar isto não é necessário recorrer às eruditas teorias evolucionistas segundo as quais o homem descende — não do macaco, como muitas vezes se afirmou — mas certamente de um animal. Que o homem seja um animal é evidente mesmo sem qualquer zoologia erudita.

Mas é um animal muito extraordinário. Tem em si muitas coisas que absolutamente não encontramos nos outros animais ou de que encontramos só pequenos vestígios. O que, antes de tudo, chama a atenção é que o homem, do ponto de vista biológico, absolutamente não teria o direito de se impor à totalidade do mundo animal, de explorá-lo e dominá-lo, comportando-se como o mais poderoso parasita da terra. Porque o homem é um animal muito imperfeito. Tem vista ruim, um olfato apenas perceptível, ouvido fraco; eis algumas de suas falhas. Armas naturais, como garras, faltam-lhe quase totalmente. Sua força é insignificante. Não é capaz de correr nem nadar com velocidade. Além disto é nu e morre muito mais facilmente que os outros animais de frio, calor, etc. Do ponto de vista biológico não teria direito à existência. Desde há muito já deveria ter perecido como tantas outras espécies imperfeitas de animais.
Mas sucedeu de modo bem diferente. O homem se tornou o senhor da natureza. Exterminou pura e simplesmente uma longa série de animais que lhe eram perigosos; outras espécies ele capturou e transformou em escravos domésticos. Mudou o aspecto do planeta; basta olhar a superfície da terra de um avião ou do alto de uma montanha para constatar como o homem modifica a face da terra. E agora ele começa também a interessar-se pelo espaço exterior, interplanetário. De uma extinção da espécie humana não se pode falar; antes teme-se que ela se torne numerosa demais.

a razão do homem

Como foi tudo isso possível ao homem? Todos sabemos a resposta: devido à sua razão. O homem, embora seja fraco quase em tudo, possui uma arma terrível: sua inteligência. É incomparavelmente mais inteligente que qualquer animal, mesmo que se trate do mais elevado dentre eles. Sem dúvida, encontramos uma certa inteligência também nos animais, como macacos, gatos, elefantes. Mas é coisa insignificante, mesmo comparada com o mais ignorante dos homens. Aí está a razão de seu sucesso na terra.
Mas esta é ainda uma resposta provisória e superficial. Parece que o homem não só tem mais inteligência que os outros animais, mas que sua inteligência é também de outra natureza, demos-lhe o nome que quisermos. Esta natureza própria da inteligência humana se mostra no fato de ele, e só ele, possuir uma série de características que o distinguem de todos os outros animais. As que mais chamam a atenção são as cinco seguintes: a técnica, a tradição, o progresso, a capacidade de pensar de modo inteiramente diferente que os outros animais, e, finalmente, a reflexão. (...)
Quando se consideram todas essas peculiaridades do homem, não se pode estranhar que o fundador de nossa filosofia ocidental, Platão, tenha chegado à conclusão de que o homem é algo inteiram ente distinto de todo o resto da natureza. Ele, ou antes aquilo que o faz ser homem — a psique, a alma, o espírito — está, sim, no mundo, mas não é do mundo, não pertence a este mundo. Eleva-se acima de toda a natureza.
As propriedades que enumeramos formam, entretanto, só um aspecto do homem. Já dissemos que ele é, ao mesmo tempo, um animal verdadeiro e pleno. E o que é mais importante, o espiritual no homem está estreitamente dependente do aspecto puramente animal e corporal. A menor perturbação no cérebro basta para aleijar o pensamento do maior dos gênios; meio litro de álcool é capaz de transformar o mais sensível dos poetas num animal selvagem. Ora, o corpo com seus processos fisiológicos e a vida animal com seus instintos constituem algo tão diferente do espírito, que surge necessariamente a questão de como é possível uma união de ambos num só ser. Esta é a questão central da filosofia sobre o homem, a antropologia.

a alma humana

Diversas soluções foram apresentadas para esta questão. A mais antiga e a mais simples consiste em dizer que no homem não existe nada além do corpo e o movimento mecânico das partículas corporais. Tal é a solução do estrito materialismo. Hoje em dia são raros os seus representantes e isto devido a um argumento que contra o mesmo foi formulado pelo grande filósofo alemão, Leibniz. Este sugeriu que se imaginasse o cérebro humano tão grande que fosse possível locomover-se dentro dele como num moinho. Neste caso só deveríamos encontrar nele o movimento de diferentes corpúsculos, mas nunca uma coisa parecida com o pensamento. Portanto o pensamento deve ser alguma coisa inteiramente diferente do mero movimento do corpo. Poder-se-ia, naturalmente, dizer que nem existe o pensamento ou a consciência, mas isto é tão abertamente falso que os filósofos não costumam tomar a sério uma tal afirmativa.
Fora este materialismo extremado existe ainda um outro — o materialismo moderado — segundo o qual existe uma consciência que, no entanto, nada mais é que uma função do corpo — função que se distingue somente por graus das outras funções animais. Esta é uma opinião que se deve tomar muito mais a sério.
Antes de tudo, ela se aproxima bastante de uma terceira concepção da alma humana que devemos a Aristóteles e que, modernamente, parece receber uma grande confirmação do lado da ciência. Esta se distingue em dois pontos do materialismo moderado: afirma, em primeiro lugar, que não tem sentido contrapor unilateralmente as funções espirituais às corporais. O homem, ensina Aristóteles, é um todo e este todo tem diferentes funções: as que são meramente físicas, as vegetativas, as sensitivas e, finalmente, as espirituais. Todas estas são funções não do corpo, mas do homem, do todo. A segunda diferença está em que Aristóteles, como Platão, vê nas funções espirituais do homem alguma coisa particular que não existe nos outros animais.
Finalmente os platônicos de estreita observância — que nem em nossos dias faltam — são de opinião que o homem — como alguns de seus adversários maliciosos o formularam — é um anjo que habita numa máquina, um espírito puro que move um mecanismo puro. Este espírito, como já dissemos, é concebido como um ser inteiramente diferente de todo o resto que se encontra no mundo. Não só o filósofo francês Descartes, mas também muitos filósofos existencialistas mantêm, sob diferentes formas, essa doutrina de Platão. Segundo eles, o homem não é o todo, mas só o espírito, ou, como hoje se diz, a existência. 

Este texto foi editado para publicação em meio eletrônico e melhor aproveitamento do leitor. 

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