quarta-feira, maio 25, 2016

A família livre

"Conheci muitos casamentos felizes, mas nenhum compatível. 
A única finalidade do casamento é combater permanentemente 
e ultrapassar o instante em que a incompatibilidade é evidente, 
pois homem e mulher, como tais, são incompatíveis."


G.K. Chesterton, “Disparates do mundo”, p. 42-46.

Consideraremos as tendências políticas e cósmicas apenas naquilo em que ferem esse teto único e ancestral. Pouquíssimas palavras bastarão para tudo o que quero dizer sobre a família em si. Abandonarei as especulações sobre a sua origem animal e os pormenores da sua reconstrução social; o meu único fito é tratar da sua palpável onipresença. Ela é uma necessidade da humanidade; é (se assim o quiserem) uma armadilha, uma prisão, para a humanidade. (...)
Pode dizer-se que esta instituição do lar é a única instituição anárquica que existe. O mesmo é dizer que é mais antiga do que a lei e se firma fora do Estado. Pela sua natureza, rejuvenesce ou corrompe-se pelo jogo das indefiníveis forças do costume ou do parentesco. Não se entenda que o Estado não tem autoridade sobre as famílias ou que a autoridade do Estado não possa e deva ser invocada em muitos casos anormais; mas, na maioria dos casos de alegrias e desgostos de família, o Estado não tem nunca que intervir. Não é certo dizer-se que a lei não deve interferir; o certo é não poder fazê-lo. Tal como há domínios demasiado distantes dos caminhos da lei, outros há demasiado próximos: assim, é mais fácil a um homem ver o Polo Norte do que a sua própria coluna vertebral. Tanto escapam à vigilância os problemas minúsculos e próximos como os grandes e remotos problemas, e as reais dores e alegrias familiares constituem um flagrante exemplo disto mesmo. Se uma criança pede a lua, o polícia não pode satisfazê-la, mas também não a pode fazer calar.

Criaturas tão próximas uma da outra como marido e mulher ou mãe e filho têm poderes para mutuamente se fazerem felizes ou infelizes, sem que qualquer medida coercitiva legal se lhes possa aplicar. Se todas as manhãs se pudesse dissolver o casamento, não era isso que devolveria ao homem o repouso noturno que lhe fora roubado por uma descompostura da mulher; e qual será a vantagem de dar ao homem um grande poder, se o que ele quer é um pouquinho de paz? O filho deve obedecer à pior das mães; a mãe deve ser dedicada ao mais indigno dos filhos; para tais parentescos, as desforras legais são vãs. Mesmo nos casos anormais em que a lei tem serventia eventual, encontra-se sempre aquela dificuldade, como bem sabem tantos magistrados perplexos. Terão que salvar da fome filhos, roubando-lhes quem lhes ganha o sustento e frequentemente terão que partir o coração da mulher por o marido já lhe ter partido a cabeça. O Estado não tem ferramenta assaz delicada para extrair os hábitos enraizados e as complexas afeições familiares; os dois sexos, felizes ou infelizes, estão colados um ao outro demasiado solidamente para que possamos introduzir entre eles o bisturi legal. O homem e a mulher são uma só carne — sim, mesmo quando não formam um só espírito. O homem engatinha. Sobre aquela íntima e anárquica intimidade ancestral os vários tipos de governo têm pouco ou nenhum efeito; será feliz ou infeliz consoante a sua sanidade sexual e cordialidade de hábitos, quer esteja na república da Suíça ou no despotismo do Sião. Nem no Sião uma república se esforçaria muito para libertar irmãos siameses.
O problema não é de casamento, mas de sexo, e faria sentir-se mesmo no mais livre dos concubinatos. Contudo, a esmagadora maioria nunca acreditou em liberdade neste assunto, mas sempre em laços mais ou menos duradouros. Tribos e civilizações divergem sobre os casos em que os laços podem ser desapertados, mas todos concordam em que há um laço a desapertar e não a desatar total e simplesmente. Para as finalidades deste livro não tenho a intenção de analisar nele a concepção mística do casamento que aliás perfilho — a grande tradição europeia fez do matrimônio um sacramento. Bastará aqui dizer que tanto os gentios como os cristãos consideraram o casamento como um laço, um ato que normalmente não poderá ser desligado. Em resumo, esta crença do homem num vínculo sexual assenta num princípio muito mal estudado pelas mentalidades modernas.
A comparação talvez mais adequada faz-se com o princípio do segundo passo ao aprender a andar: só custa dar o primeiro passo. A essência deste princípio é a seguinte: em tudo o que vale a pena possuir, mesmo em todos os prazeres, há um ponto doloroso ou entediante que deve ser ultrapassado para que o prazer volte e seja duradouro. A alegria da batalha vem depois do primeiro medo da morte; o prazer de ler Virgílio só o temos depois de uma estopante aprendizagem; o bem-estar do banhista chega após o choque gélido do mergulho e o êxito do casamento depois do malogro da lua de mel. Todos os votos, leis e contratos humanos são outros tantos meros processos para ultrapassar com êxito aquele ponto crítico, momento de potencial capitulação.
Em tudo o que neste mundo vale a pena fazer há uma fase em que ninguém o faria, exceto por necessidade ou para salvar a honra. É então que as instituições amparam o homem e o ajudam a alcançar o terreno mais firme à sua frente. Se esta real característica da natureza humana é ou não suficiente para justificar a sublime consagração do casamento cristão é assunto completamente diferente; é mais do que suficiente, porém para justificar o sentimento humano geral de que o casamento é ato imutável, cuja dissolução é criminosa ou, pelo menos, ignominiosa. O elemento essencial não é tanto a duração, mas sim a segurança. Duas pessoas têm que se ligar para se apreciarem mutuamente; vinte minutos num baile ou vinte anos de casamento. Em ambos os casos o ponto a notar é que, se um homem se aborrece nos primeiros cinco minutos, tem que continuar e esforçar-se por alcançar a felicidade. A coerção tem o seu quê de animador, enquanto que a anarquia (ou o que alguns chamam a liberdade) é essencialmente opressiva por essencial lhe ser o desânimo. Se flutuássemos no ar como bolas de sabão, sujeitos a sermos arrastados para qualquer ponto a todo o momento, o resultado prático seria que ninguém havia de ter a coragem de iniciar qualquer conversa. Seria terrivelmente embaraçoso começar uma frase num murmúrio amistoso e ter que terminá-la aos gritos por o nosso interlocutor vogar em sentido contrário ao nosso no livre e informe éter. Ambos teriam que se unir para se entenderem. Se os americanos se divorciam por «incompatibilidade de gênios» não compreendo porque ainda não estão todos divorciados.
Conheci muitos casamentos felizes, mas nenhum compatível. A única finalidade do casamento é combater permanentemente e ultrapassar o instante em que a incompatibilidade é evidente, pois homem e mulher, como tais, são incompatíveis.

Este texto foi editado para publicação em meio eletrônico e melhor aproveitamento do leitor.

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