segunda-feira, janeiro 04, 2016

Moderação e Temperança


O viciado alega que é livre, mas engana-se. Quando pratica os vícios ligados ao prazer físico, diz que faz o que quer, porque é livre, mas só faz o que não consegue deixar de fazer: já não tem mais o poder de “não querer”; tornou-se escravo


A MODERAÇÃO: a virtude da temperança em sentido amplo


A moderação não é mediocridade. “Acontece muitas vezes que condutas, que em si mesmas são boas e têm aspecto de virtudes, deixam de ser virtudes porque perdem o equilíbrio: tornam-se abusos, exageros, absurdos, extravagâncias.
Encontramos muitos exemplos disso na vida cotidiana (às vezes, unidos a desequilíbrios psíquicos). Pense no caso da pessoa que tem a “mania da ordem” (que ela confunde com a virtude da ordem) e inferniza a vida dos outros quando um objeto está três centímetros fora do lugar. Ou nos exageros de outros quanto ao cuidado da saúde – que é um dever –, que os levam à hipocondria e ao consumo desmedido de remédios. Ou na conduta do workaholic, que só vive para o trabalho, e sacrifica a esposa, os filhos e a saúde a essa labuta obsessiva (que nada tem a ver com a virtude da laboriosidade). O exagero, evidentemente, é um “ponto errado”.
Mas é igualmente errado achar que a moderação e o equilíbrio consistem sempre num meio-termo morno, nem frio nem quente (cf. Ap 3, 15): “Não exageremos! – dizem esses moderados – Sejamos razoáveis!”. O que, traduzido, significa quase sempre: “Sejamos medíocres, basta ser morno”. Esse “meio-termo sensato” é o álibi dos comodistas.
A essas pessoas sem aspirações, de baixa estatura moral, referia-se São Josemaria ao escrever: «Seria um erro pensar que a expressão meio-termo, como elemento característico das virtudes morais, significa mediocridade, como que a metade do que é possível realizar. Esse meio entre o excesso e o defeito é um cume, o mais elevado que a prudência indica» (Amigos de Deus, n. 83).
A virtude é um bem, e a todo bem deve aplicar-se o que dizia Aristóteles e Santo Tomás comenta: que, em relação ao bem «a norma consiste no extremo, no máximo» (Cf. Suma Teológica, 1-2, 64, 1).
A virtude é um “cume” ao qual se aspira. Vamos refletir sobre dois tipos de cume.


Os cumes absolutos

Existem valores e virtudes cujo “ponto certo”, “equilibrado”, é sempre o mais elevado possível. A acomodação ao “mais ou menos” é incompatível com eles.
Imagine frases absurdas como as seguintes:
– Respeite a vida alheia “mais ou menos”, só atropele alguns pedestres por mês.
– Tenha um amor “médio” aos filhos. Não os ame muito.
– Seja só meio-responsável e meio-honesto.
– No amor a Deus faça “média”. Nada de fanatismos.
É evidente que essas virtudes amaciadas não podem ser verdadeiras virtudes. Basta escutar a Cristo. Ele ensina que devemos a amar a Deus seguindo a pauta do primeiro mandamento, que já se encontra no Velho Testamento: Amarás com todo o teu coração, toda a tua alma, com todo o teu espírito e com todas as tuas forças (Dt 6, 5; Mc 12, 29). Diz “com todo”, não “com meio”.
Após falar do amor ao próximo até chegar ao perdão dos inimigos, Jesus indica: Portanto, sede perfeitos, assim como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5, 49). Dado que é impossível igualar a perfeição de Deus, isso significa que devemos ir sempre além, sem pôr limites à procura da perfeição.

Os cumes relativos

Aqui, a palavra “relativo” não significa “mais ou menos”, um coquetel de “sim” e “não”. O significado exato é o da frase de Amigos de Deus (n. 83) acima citada: a virtude está no «meio entre o excesso e o defeito: é um cume, o mais elevado que a prudência indica».
Acabamos de ver que os valores absolutos não admitem mais ou menos.
Mas há outras virtudes que são um bem que pode extrapolar pelos dois extremos: por excesso, e por defeito.
Exemplificando:
– A laboriosidade ergue-se no ponto certo entre os extremos da preguiça e do ativismo desordenado.
– A coragem, no ponto certo entre a covardia e a temeridade.
– A humildade, no ponto certo entre o orgulho e o autor- rebaixamento falso.


Cada um desses extremos (por excesso ou por defeito) é um barranco em que a virtude pode despencar e morrer. Mas, no meio desses dois barrancos, a virtude ergue-se como uma montanha, um pico ao qual devemos aspirar, com a graça de Deus, aquele «cume mais elevado que a prudência indica».


O bom “moderador”

Uma última consideração. Olhemos para o regente de uma orquestra, que tem a função de ser o harmonizador, o “moderador” de todos músicos. Tem a responsabilidade de que cada instrumento dê a nota certa no momento certo, sem omissões, invasões nem estridências.
Não seria bom regente o que permitisse que o trombone encobrisse o solo do violoncelo, ou que as cordas entrassem tarde e descompassadas, ou que os instrumentos de sopro previstos brilhassem pela sua ausência.
De forma análoga, a virtude da moderação exige que sejamos bons regentes de nós mesmos, organizando-nos de modo que todos os aspectos da vida “deem a nota certa no momento certo”, sem tolerar, por exemplo, que a navegação ociosa na Internet afogue a oração, ou que – como tantas vezes comentamos neste livro – o trabalho abafe o carinho e a dedicação à família.


TEMPERANÇA: a virtude cardeal


O Catecismo fala das várias dimensões dessa virtude. De modo geral, a define como «a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade» (n. 1809).
Podemos dizer, com outras palavras, que a temperança estabelece e mantém o equilíbrio, a harmonia, entre a dimensão espiritual e a dimensão corporal do homem.
Por ela, o espírito (a razão e a vontade, mais a graça do Espírito Santo) “modera” as tendências instintivas da natureza e a ânsia de prazer. Mantém equilibradas, especialmente, as tendências e prazeres ligados à auto conservação (comer, beber, descansar, sexualidade). Faz com que vivamos de acordo com a dignidade humana e com a condição de filhos de Deus.


Moderar não é anular

É importante reparar que, ao definir a temperança, o Catecismo não usa as expressões “suprime”, “reprime”, “abafa”...
O Cristianismo não é inimigo do corpo, nem do prazer. Basta pensar que Deus assumiu um corpo humano em Jesus Cristo – que nós adoramos na Eucaristia (cf. Jo 6, 56) –, e que o primeiro milagre de Cristo foi a transformação da água em vinho, em Caná, para que não se prejudicasse a alegria de um banquete de casamento (Jo 2, 1 ss).
Por isso, Santo Tomás de Aquino falava do “pecado da insensibilidade”, que se dá quando «se rejeita o prazer, a ponto de abandonar as coisas que são necessárias à conservação da natureza»; e até afirmava que «se alguém se abstivesse do vinho de tal maneira que com isso prejudicasse a natureza, não estaria livre de culpa» (Suma Teológica, 2-2, 142, 1 e 153, 4).
Dizer que a matéria e o corpo são maus é uma afirmação própria da heresia do maniqueísmo, é anticristã. Justamente porque o corpo é criado por Deus, porque é um grande dom de Deus, é necessário mantê-lo equilibrado dentro de seu bem razoável, a fim de que nem os abusos, nem as deturpações, nem as loucuras o aviltem ou o estraguem. Esta é a função da virtude da temperança.
Alguém dizia que, simbolicamente, Deus pôs o homem em pé, para que entendesse que a cabeça está por cima do resto: a cabeça está por cima do coração; e cabeça e coração, por cima do ventre e do sexo. Transtornar essa ordem, colocando a gula ou o sexo acima do coração (do amor) e da cabeça (num nível irracional), isso é degradar o homem.


A ordem e a desordem no prazer

Ao texto acima citado, o Catecismo acrescenta que «a pessoa temperante guarda uma santa discrição e não se deixa arrastar pelas paixões» (cf. n. 1809).
Vida virtuosa é “vida em ordem”, guiada pela razão e pelas luzes de Deus. O pecado é uma desordem: a falta de harmonia com Deus, com a verdade e com o bem.
Em que consiste a desordem, em matéria de temperança? Fundamentalmente em três coisas:

a) Usar o que existe para o bem como instrumento para o mal

Pensemos que, em geral, o homem pode usar as suas mais nobres faculdades, a inteligência e a vontade, tanto para o bem como para o mal: por exemplo, para criar armas de destruição em massa, ou planejar e executar guerras, crimes e injustiças.
A intemperança reflete esse tipo de desordem:
– transformar aquilo que existe para servir à vida – o alimento e a bebida – em instrumento do mal, que leva a perder a saúde física e psíquica;
– como o sexo, que é manifestação santa de amor entre os esposos e colaboração com Deus criador, como mero gozo sem responsabilidade, ou como crime (p.e. abuso de menores), ou como adultério e traição.

b) Transformar o que existe para “servir” em tirano que escraviza

Comida, bebida, sexo, são, no plano de Deus criador, “servidores” da vida e do amor.
Quando descambam e se tornam um vício egoísta, uma obsessão doentia, então o “servidor” vira “amo e senhor” que escraviza.
O viciado alega que é livre, mas engana-se. Quando pratica os vícios ligados ao prazer físico, diz que faz o que quer, porque é livre, mas só faz o que não consegue deixar de fazer: já não tem mais o poder de “não querer”; tornou-se escravo (do crack, do álcool, da cocaína, do sexo obsessivo-compulsivo, etc.).

c) Transformar os meios em fins

Transformar um meio em fim é o máximo da desordem, que já percebemos nas considerações anteriores. É conhecida a frase de que “alguns, em vez de comer para viver, vivem para comer”. O meio se transformou num fim. Da mesma forma, há os que transformaram o sexo sem amor e sem regra na finalidade da vida. É triste ler, num texto de certa escritora conhecida por seus escassos escrúpulos morais, que “viver é fazer sexo”... (Ela usa uma expressão menos delicada).


Temperança é grandeza humana

É claro que a temperança exige o domínio sobre os desejos egoístas e abusivos. Esse domínio é conquistado pelo amor ao bem, pela petição do auxílio divino, e pela imprescindível mortificação (com atos frequentes de autodomínio).
«Temperança é espírito senhoril. Nem tudo o que experimentamos no corpo e na alma deve ser deixado à rédea solta [...]. Eu quero considerar os frutos da temperança, quero ver o homem verdadeiramente homem, livre das coisas que brilham, mas não têm valor.
«Esse homem sabe prescindir do que faz mal à sua alma e apercebe-se de que o sacrifício é apenas aparente, porque, ao viver assim – com sacrifício – livra-se de muitas escravidões e no íntimo do seu coração consegue saborear todo o amor de Deus.
«A vida recupera então os matizes que a intemperança esbate. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes.
«A temperança cria a alma sóbria, modesta, compreensiva; confere-lhe um recato natural que é sempre atraente, porque se nota na conduta o império da inteligência.

«A temperança não supõe limitação, mas grandeza. Há muito maior privação na intemperança, porque o coração abdica de si mesmo para ir atrás do primeiro que lhe faça soar aos ouvidos o pobre ruído de uns chocalhos de lata» (São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, n. 84).

O autor







Trecho tirado de: Francisco Faus em A conquista das virtudes.

São Paulo : Cultor de Livros,  2014.



Um comentário:

  1. Ótimo texto com ênfase no equilíbrio , algo tāo precioso e que tanto nos falta ultimamente. Deveríamos refletir muito sobre este tema, a considerar que o Universo é feito do mais perfeito equilíbrio.

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