segunda-feira, agosto 10, 2015

Um leproso entre os leprosos

"NÃO HÁ MAIOR AMOR DO QUE O DAQUELE QUE DÁ A VIDA PELOS QUE AMA"


Trecho recortado de:

Daniel-Rops. A Igreja das Revoluções II: um combate por Deus. São Paulo: Quadrante, 2006, p510-513.



"Em maio de 1873, na ilha de Mauí, no centro do arquipélago do Havaí, estavam reunidos seis padres à volta de mons. Maigret, vigário apostólico, velho pioneiro da tarefa evangelizadora no Pacífico. Todos eles pertenciam à Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, fundada oitenta anos antes, em pleno terror revolucionário, pelo pe. Coudrin; eram habitualmente conhecidos por picpucianos, nome que lhes vinha da rua Picpus, em Paris, onde ficava a casa-mãe do Instituto. Por exceção, envergavam, em lugar das suas roupas de trabalho, muito gastas, a batina branca ornada de dois corações bordados a vermelho, que só usavam em grandes cerimônias. Terminada a sagração da igreja, que foi o motivo que os tinha reunido, falaram durante a refeição do estado das missões do Pacífico. Pareciam estar bem. Passara já o tempo em que um padre era apunhalado nas Tuamotu, ou um bispo, sete missionários e dez religiosas morriam mártires nas Marshall, ou a perseguição tudo varria nas do Havaí. Nesse momento, quantas não seriam as ilhas dotadas de uma bela igreja! E como ia aumentando o número de batizados! O campo estava semeado, a seara crescia... Mas o mais velho dos missionários, abanando a cabeça, deixou escapar um só nome: Molokai...

E todos compreenderam o que ele queria dizer. Molokai era uma ilha como as outras, um paraíso como os outros quanto à doçura do clima, a beleza das paisagens, embora não quanto à vegetação, bastante pobre. Mas havia vinte e cinco anos que um terrível flagelo se abatera sobre o arquipélago e fazia razias entre a população canaca: a lepra. Espavoridos, derrotados, os administradores nada tinham podido fazer senão mandar juntar todos os leprosos para os colocar na península de Kalawao, no norte de Molokai. Mais de um milhar de seres humanos ali estavam, sem contacto com o mundo exterior, quase reduzidos à condição de animais e tratando-se uns aos outros como feras. A simples evocação do leprosário era suficiente para mergulhar na angústia a alma dos missionários. E o mesmo pensamento atravessou o espírito dos sete homens ali reunidos: seria preciso um padre naquele inferno. Mas quem? Há certas ordens que um chefe não ousa dar, nomeações que não pode fazer.

Fez-se silêncio, logo cortado por uma voz: "Eu". Havia um voluntário. Um jovem alto, louro, vigoroso, de cores saudáveis, fronte larga. Exprimia-se em francês, mas com um sotaque arrastado e cantante. Era um flamengo belga, filho de lavradores de Tremeloo, perto de Lovaina, que chegara à missão havia nove anos e já dera provas do que era capaz: simultaneamente baptiseur e bâtisseur ["batizador" e "construtor"], grande semeador de capelas, infatigável, e perfeito senhor da língua canaca. Chamava-se Joseph de Veuster, em religião Padre Damião. Tinha trinta e três anos. "Como Jesus Cristo... " - murmurou mons. Maigret, ao ouvir o seu subordinado fazer-lhe a proposta heroica. Como Jesus Cristo... E o bispo aceitou.




Começou então uma das aventuras humanas mais extraordinárias de que se tem conhecimento. Desembarcando no outono de 1873 do pequeno vapor Kilauea, que fazia o serviço das ilhas, e no qual mons. Maigret decidira acompanhá-lo, o pe. Damião logo ser viu atirado para o meio do que realmente lhe pareceu o inferno. Era pouco ver à sua volta essas faces leoninas, esses esqueletos ambulantes, esses corpos de extremidades purulentas, como era pouco respirar incessantemente esse odor pestilencial que flutuava no leprosário. Para um padre, muito mais penoso era ver a degradação moral daqueles infelizes, encontrar moribundos atirados para o monturo, ver as mães abandonarem os filhinhos, assistir a repugnantes bacanais, ouvir repetir por tantos e tantos: "Aqui, não há nem leis nem moral: para quê?" Nesse universo de todas as desolações, o pe. Damião achou-se só e despojado, tão só e tão despojado que, na primeira noite, como não lhe tinham destinado nenhuma morada, teve por leito a base de uma grande árvore (um pândano), e por refeição o pão que levara do navio. Estava só - e são - no meio de leprosos. Iria ficar com eles dezesseis anos - até morrer.

Diante de tal imensidade de misérias e horrores, outros se teriam desencorajado. Se o pe. Damião, no fundo de si mesmo, foi alguma vez assaltado pela tentação de perder a coragem, ninguém o soube. Com esses rebotalhos humanos, ele tinha de reconstruir homens. E lançou-se sem demora ao trabalho. O filho dos sólidos camponeses da Flandres não desconhecia nenhuma das tarefas da agricultura e tinha os braços preparados para tudo. Empreendeu-se um vasto plano de exploração do solo. Todos os leprosos com forças para isso foram postos a cultivar a terra. Da montanha veio a água. A princípio, por turnos de carregadores em fila, que o padre abria pessoalmente, com um balde em cada braço. Depois, instalou-se uma canalização. As velhas cabanas infectas foram queimadas e substituídas por outras: o missionário era bom carpinteiro. Limparam-se as entradas das aldeias. Fizeram-se cemitérios. E o mais belo dia foi aquele em que se abriu ao culto uma igreja nova em folha, numa cerimônia a que assistiram todos os leprosos que podiam andar.

Mais ainda que esse renascimento material, o que a presença do pe. Damião operou no inferno de Molokai foi a ressurreição moral. Onde reinava a violência, o ódio, as piores desordens, estabeleceu-se um clima novo, um clima de caridade. Os canacas eram gente simples, muito ingênua, certamente dominada pelos instintos, mas sensível à bondade. Nunca qualquer dos missionários protestantes que trabalhavam no arquipélago tinha vindo morar com eles. O pe. Damião fez-se um deles, a tal ponto que, quando pregava, dizia: "Nós, os leprosos". Bastava a sua presença para transmitir calor de amizade. Reconstituíram-se famílias normais. Cessaram as pilhagens e as agressões. As moças agruparam-se em sociedades marianas e aprenderam a cantar. Para os rapazes, o padre organizou competições esportivas. Até o setor dos leprosos loucos - lugar das piores abjeções - pouco a pouco se acalmou. Aliás, o pe. Damião não hesitava em usar de argumentos vigorosos para impor a ordem: o cassetete contribuiu para fazer desaparecer o alcoolismo e reprimir os violentos. Em cinco ou seis anos, Molokai mudou.

Pelas ilhas, começava-se a falar do assombroso missionário. Tornou-se raro que o Kilauea não trouxesse, em cada viagem, víveres, camas, cobertores, remédios. As religiosas de Honolulu não podiam ir ter com o padre, mas organizavam coletas. Até se conseguiu arranjar um sino para a igreja. O êxito despertou invejas. Inquietos com o número das conversões, os missionários protestantes trataram de pôr dificuldades ao processo. Foi sugerido ao pe. Damião que fosse descansar. Recusou. Tomou-se então uma decisão terrível: sob o pretexto de evitar o contágio, e embora ele próprio não estivesse ainda leproso, foi-lhe proibido sair do leprosário, condenando-o, pois, a ser também ele um morto-vivo. E, para se confessar, passou a ter de avançar sozinho na sua canoa até ao alcance da voz do barco de cabotagem, do alto do qual um dos seus colegas de sacerdócio escutava a sua confissão em latim e lhe dava a absolvição.


Essa prodigiosa experiência teve o fim que era de prever. O pe. Damião nunca tomara qualquer precaução contra a lepra. Comia o poi, a sopa indígena, com os seus leprosos de dedos purulentos. Um dia, ao tomar uma ducha demasiado quente, sofreu uma queimadura, mas não sentiu nada. Bem sabia ele o que isso queria dizer. Por doze anos, a sua robusta constituição resistira ao mal. Mas o bacilo tinha ganho a partida. Havia muito que o padre previra essa eventualidade, e aceitara-a. Doravante, seria inteiramente "leproso entre os leprosos".

Levou quatro anos a morrer. A doença foi-lhe clemente, no sentido de que só nos últimos dias lhe atacou os olhos, e quase o poupou à decomposição purulenta dos membros. Mas o seu rosto, esse belo rosto de bom camponês flamengo, inchou, deformou-se. Nessa máscara leonina em que tudo eram borbulhas, quem reconheceria o vigoroso jovem que, em 1877, ali desembarcara entre os mortos-vivos!

Enquanto se aproximava o termo da sua carreira, a celebridade foi-o envolvendo. Da Europa, da América, chegavam-lhe jornais e revistas em que se falava dele. Um jornal francês dizia em manchete: "O herói de Molokai". Outro, alemão, exclamava: "Vós que passais diante das falésias de Molokai, curvai-vos!" A Regente das ilhas, uma princesa canaca de grande coração, decidiu ir visitá-lo, levando-lhe uma condecoração. O Japão mandou-lhe um médico e medicamentos. Os missionários protestantes inclinaram-se diante da sua figura.

Para ele, a suprema consolação foi a certeza de que a sua obra ia sobreviver-lhe. Fora-lhe enviado um auxiliar; viera também um dos seus antigos colegas de colégio, e o seu próprio irmão falava de ir juntar-se a ele. Apresentaram-se religiosas voluntárias para cuidar dos órfãos. Morreu em 15 de abril de 1889, aos quarenta e nove anos. Segundo o seu desejo, foi enterrado debaixo do grande pândano onde passara a sua primeira noite na ilha. Ergueu-se ali uma cruz, e no pedestal foram gravadas as palavras do Evangelho: "Não há maior amor do que o daquele que dá a vida pelos que ama".

E a lição dessa vida, como de outras vidas bem análogas, iria tirá-la o Mahatma Gandhi numas poucas linhas que um católico não lê sem comovido orgulho: "Se a assistência aos leprosos é tão querida aos missionários, sobretudo aos missionários católicos, é porque nenhum outro serviço pede maior espírito de sacrifício do que esse. Um leprosário exige o mais alto ideal e a mais perfeita abnegação. O mundo da política e do jornalismo tem bem poucos heróis comparáveis ao pe. Damião de que se possa gloriar. Pelo contrário, a Igreja Católica possui aos milhares aqueles que, a exemplo do pe. Damião, se dedicaram ao serviço dos leprosos. Vale a pena procurar a fonte de semelhante heroísmo" ¹ "

1. Discurso do Mahatma Gandhi aos estudantes universitários de Lahore. Entre os exemplos de missionários que morreram "leprosos entre os leprosos", podem-se citar dois maristas, o pe. Nicoulleau e o pe. Lejeune; o pe. Edmond, de Guadalupe; a madre Carolina, irmã-catequista alemã, verdadeira apóstola da Índia, falecida em 1934. E bastantes mais. Nas ilhas Fidji, no grande leprosário de Maxogai, as Irmãs Missionárias da Sociedade da Maria estão ao serviço dos leprosos, tal como no Congo, em Madagascar, em Mantávia perto do Ceilão. Na Birmânia e no Japão, são as franciscanas missionárias de Maria. E em muitos outros lugares...

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