segunda-feira, agosto 10, 2015

Toyohiko Kagawa - Um “santo”* protestante


Nenhum cristão, seja qual for a obediência a que pertença, pode falar deste homem sem emoção, sem afeição. Já lhe têm chamado “louco de Cristo”, “São Francisco do Japão”, e não são fórmulas literárias. Quando se soube da sua morte, nos últimos dias de abril de 1960, houve católicos que se uniram para mandar celebrar uma missa em sua memória. Esse homenzinho sem encanto, de olhos quase cegos por trás de enormes lentes, é um desses seres que, na hora das trevas, nos consolam de também sermos homens. E é como se, nesses momentos, ouvíssemos a sua voz aguda repetir, num inglês medíocre, as palavras de ordem a que submeteu a sua vida: “Não quero ser senão escravo de Jesus Cristo! O meu Deus é a minha luz! A regra da minha vida é o amor”. Faltaria muito à nossa época se não tivesse sido a época de Kagawa, tal como foi a de Santa Teresa de Lisieux, de Charles de Foucauld ou de Gandhi.



Vejamos esse “filho das lágrimas” chegar à casa dos bons missionários anglicanos de Tokushima, os Myers. Aos onze anos, dir-se-ia que esse pequeno Toyohiko tinha tocado o fundo da miséria humana. Nascido de pai de nobre linhagem, mas de uma concubina de costumes fáceis, sofreu desde criancinha a vergonha de ser chamado “filho da p...”. Quando o pai e a mãe morreram, caiu sob o poder da madrasta, a esposa legítima, que lhe fez pagar bem caro a honra de ser o único herdeiro masculino do marido. Confinado numa herdade, vivendo a maior parte do tempo sozinho, frequentemente moído a pancadas pelas servas e pelos pedagogos encarregados de ensinar-lhe os caracteres da escrita e as máximas de Confúcio, só por milagre é que não se tornou neurastênico e misantropo. Mas não: no peito desse rapazinho, havia um sentimento natural, devido sabe-se lá a que ascendência, e que as durezas da vida não tinham abafado: a certeza de que não se deve pagar o mal com o mal e de que, no fim de contas, o grande vencedor é o amor.


Na casa dos Myers, para onde foi mandado a fim de se formar no inglês e na civilização ocidental, encontrou Aquele que era o único que podia responder inteiramente à sua procura instintiva. Ele próprio iria relatar o diálogo patético que teve com o pastor: “– É verdade que homens cruéis perseguiram Jesus, lhe bateram, lhe cuspiram na cara? – É verdade. – É verdade que, quando morreu na Cruz, perdoou a todos os que lhe tinham feito mal? – É verdade”. E a conclusão que ele deu a essa conversa: ajoelhou-se, com a fronte por terra, e rezou: “Que eu seja capaz de imitar Jesus Cristo!”.

Dito e feito: aos quinze anos, tinha-se tornado cristão. E aos vinte, vencera a suprema etapa: decidira consagrar a vida inteira ao serviço de Deus. Entretanto, porém, fizera uma outra descoberta: descobrira os pobres, descobrira que os pobres eram o próprio Cristo, Cristo sempre conosco. Nos slums de Kobe, vendo viver a plebe miserável dos trabalhadores sem trabalho, dos mendigos e das prostitutas, decidira como viver: esfarrapado entre os esfarrapados, como eles alojado numa toca de seis pés quadrados, alimentando-se de uma ração de arroz por dia. A tuberculose esteve quase a interromper-lhe a experiência, como também os estudos de teologia que iniciara numa universidade presbiteriana. Mas, logo que se recompôs como pôde, e já com o título de pastor, retomou a ideia e deu à chamada de Deus a forma que escolhera. E lá foi ele, empurrando um carrinho de mão carregado das suas coisas e dos seus livros, para se instalar como pastor de uma paróquia sufocante, que nenhuma Igreja ousaria criar, uma paróquia feita de dez mil almas perdidas, no meio das favelas e dos bas-fonds de Shinkawa.

Shinkawa: experiência sublime. Instalado numa barraca minúscula – seis pés quadrados, nem mais um -, partilhando o leito alternadamente com um sarnento, um piolhoso, um assassino enlouquecido pela angústia do crime cometido – a ponto de não conseguir dormir se não lhe estreitavam a mão –, se não era com certo doente cujo tracoma contagioso lhe fez perder a vista em mais de nove décimos, Toyohiko tornou-se tão inteiramente pobre entre pobres que nem é possível imaginar maior identificação. Da fortuna paterna, já nada lhe restava; daquilo que recebia, daqui, dacolá, nada conservava. A um mendigo bêbado que lhe gritava: “Tu não és cristão, porque tens uma camisa e não ma dás!”, respondia estendendo-lhe a camisa e acrescentando a túnica e as calças.

Esse modo de proceder passa com bastante frequência por provocação. Tanto mais que, em plena guerra, esse não-violento recordava que Deus proibira formalmente: “Não matarás!” Ainda por cima, porque denunciava alto e bom som os que traficavam com a prostituição. E porque se permitia ajudar o proletariado miserável a organizar-se contra os exploradores. Legalmente, nada lhe podiam fazer, tanto mais que, doutor em teologia por uma universidade americana, reconhecido oficialmente como pastor, tendo já começado a publicar livros, de êxito garantido pelo seu incontestável talento de romancista, estava a caminho da celebridade. Mas, para detê-lo na sua obra, restavam ainda os golpes de punhal nas ruelas noturnas, as algazarras em que, como por acaso, as pancadas caíram sobre o pastor, ou mesmo os motins, pagos por patrões, em que alguns furiosos o atacavam aos gritos de “Kagawa para o fogo!” A nada o pouparam. Mas ele aguentou.

A resistência que demasiados interesses vis lhe opuseram acabou de lhe dar celebridade. O seu livro Para lá das fronteiras da morte, em que evocava o horror da condição proletária por volta dos anos 1920, valeu-lhe ser o chefe da União Operária e em seguida do Partido do Trabalho. Detido por alguns dias sob a acusação de subversivo, libertado por força da opinião pública, compreendeu então que precisava de alargar o seu campo de ação e que, para servir a causa dos pobres, não lhe estava proibido usar da arma política. Antes de se resolver a essa mudança de orientação, como de cada vez que tinha de tomar uma decisão particularmente grave, fez um retiro e, em longas horas de oração, procurou compreender o que Cristo esperava dele.

Começa nesse momento uma segunda etapa da sua existência. Nesse meio tempo, casara-se: Haruko (senhorita Primavera), chefe de oficina na universidade feminina onde Toyohiko dirigia serões espirituais, e a quem por vezes calhara substituir o pastor durante as passagens deste pela prisão, resolveu partilhar inteiramente dessa existência. Desde então, associar-se-á heroicamente a tudo o que o marido empreende. Melhor ainda: filha como é de operários pobres, ajudá-lo-á a manter-se em contato profundo com a sua verdadeira vocação, quando as circunstâncias da vida parecerem levá-lo cada vez mais para as grandes tarefas políticas e sociais, e depois para um apostolado internacional.

Partido Operário, União dos camponeses, Federação dos Cooperadores, todas essas realizações a que Kagawa está associado têm por objetivo promover a classe mais pobre, ajudá-la a sair da miséria. A Segurança Social japonesa vai nascer diretamente das suas iniciativas, enquanto a luta contra a prostituição, o diagnóstico da tuberculose e da sífilis, são também resultado das campanhas de opinião pública por ele assumidas. Como é óbvio, nada disso cresce espontaneamente... Mesmo no seu partido, os extremistas acusam-no de estar vendido ao capitalismo, de fazer o jogo dos ricos, ao passo que a grande burguesia o olha com extrema desconfiança e inveja. Mas não lhe faltam compensações. O imperador quis que ele fosse membro da Comissão Econômica e Social que acabava de ser criada.

Mas Toyohiko sabe muito bem que não vai acabar na pele de um conselheiro dos poderosos, desses que andam de automóvel, de chapéu alto... Posto à testa do departamento de beneficência do Tóquio – então arrasada pelo terremoto e onde a curva do desemprego sobe em flecha –, aproveita para duplicar a sua ação caritativa com uma cruzada de evangelização. A sua existência está cheia até rebentar. Quase cego, o corpo faz-lhe ver que, embora não tenha ainda cinquenta anos, é um tuberculoso mal curado. Que importa!... A alma fala; a carne que vá atrás... Desde moço, nunca passou um só dia sem falar de Cristo, sem pregar o Evangelho, pela palavra e também pela pena, pois o seus livros se sucedem interminavelmente, de tal maneira que, ao morrer, a sua bibliografia contará cento e oitenta títulos. Aos romances sociais, às narrativas autobiográficas, tão comovedoras, como o seu famoso Arqueiro que dispara para o Sol, misturam-se obras de pura piedade ou até de natureza mística. Daí em diante, e até ao fim da vida, fará da evangelização a sua principal atividade.

Agora a sua ação evangélica difunde-se no plano mundial. Juntam-se multidões para ouvi-lo na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos, na Escandinávia, na Austrália, até na Alemanha, embora não fale senão um inglês defeituoso. Para ele, o socialismo prático e o cristianismo caminham lado a lado. É preciso reformar o mundo, estabelecer a ordem social, distribuir as riquezas, mas é ainda mais necessário modificar o homem, repetindo-lhe as lições do Evangelho, ensinando-o a pagar o mal com o bem e a amar os inimigos. O que diz às multidões que se aglomeram para escutá-lo é muito pouco teológico; há quem afirme que é puramente sentimental. Mas quando fala da loucura da Cruz que temos de viver, do despojamento absoluto que temos de aceitar, a sua voz convence, porque ele próprio fez essa experiência da Cruz e do abandono. Num certo sentido, continua a fazê-la, gastando com os pobres todos os direitos de autor, consideráveis, que lhe rendem os seus livros, e vivendo ele próprio num visível despojamento. Vem-lhe então um sonho: constituir um exército de cinco mil missionários para sacudir, primeiro o Japão, depois o mundo, de cima a baixo. A ideia, demasiado grandiosa, fracassa ao fim de três anos, mas deixa pelo caminho várias dezenas de milhares de conversões que vão durar.

As sucessivas guerras em que a sua pátria se envolve levianamente esmagam o seu coração de apóstolo. Kagawa cala-se, não querendo condenar alto e bom som o país que ama e venera. Cala-se tanto, que Gandhi lhe censura o silencio... Assina então o manifesto de Gandhi, Tagore, Einstein e Romain Rolland contra a guerra, e, passando por Xangai, onde um pastor acaba de ser morto por uma bala japonesa, pede publicamente perdão à China, e, nome do verdadeiro Japão. Uma nova passagem pela cadeia é o fecho desse episódio.

Mas ele bem sabe que tem razão. Aproxima-se a Segunda Guerra Mundial, e os seus apelos em favor da paz, do amor, da fraternidade humana em Cristo são, de mês para mês, cada vez mais veementes e dilacerantes. É agora um velho. Tem a saúde arruinada, não pode andar sozinho, mas tem a alma intacta. Uma vez mais, em 1940, vai para a cadeia. Uma vez mais é solto, porque não ousam manter cativo um Kagawa na hora em que o Japão joga a sua existência. “Ah! Terra do meu amor – exclama ele em público – . Como os teus pecados me são pesados!” Hiroshima afunda-o na maior amargura, mas não o surpreende. Depois da derrota, o imperador apela para ele, para que ajude o país a superar a catástrofe. O seu partido triunfa na Câmara, mas ele recusara antecipadamente qualquer mandato parlamentar. Dedica todo o seu tempo a ir suplicar aos americanos que sejam misericordiosos com o Japão, em nome de Cristo. A sua viagem pelos Estados Unidos é triunfal. Vai-se fechar o círculo. Pouco a pouco, abandona todas as funções oficiais; só irá intervir em congressos para denunciar a guerra atômica. Mas retoma o cajado de peregrino, de louco de Cristo. Regressa aos bairros populares das grandes cidades: vai falar, ainda e sempre, de Cristo e da lei do amor. “Despojado até à pele, é assim que se anda bem...”, diz ele, com o seu maravilhoso sorriso.

Em 1955, corre pela primeira vez o rumor de que o apóstolo do Japão está muito mal. Volta a correr pela segunda vez em 1959. Agora é grave: contraiu uma pneumonia ao ir falar precisamente (secretos desígnios da Providência!) aos pobres de Shikoku, a mesma ilha onde, sessenta anos antes, o bom Dr. Myers lhe dera a conhecer Cristo. Por mais de um ano, ainda luta, mas o coração cede. Ao pastor amigo que lhe segura a mão, ainda tem forças para murmurar: “Pela paz do Japão, pela salvação do mundo...” Era o dia 23 de abril de 1960, pelas nove horas da manhã. Uma sombra mais espessa do que a sombra da noite desceu nesse instante sobre a terra.

O Autor

Texto recortado de
Daniel-Rops. A Igreja das Revoluções III: esses nossos irmãos, os cristãos. São Paulo: Quadrante, 2008, p308-312.


* Formalmente, não há “santos protestantes”, visto que as Igrejas saídas da Reforma ignoram a canonização. Na estrita perspectiva protestante, é lícito dizer que ninguém é santo exceto Deus, exceto Jesus Cristo, como também que todo o cristão é já um santo se procura viver em Deus. Perguntar, portanto, se na nossa época há “santos protestantes” é apresentar uma fórmula contraditória nos seus termos. Para esclarecê-la, haveria que usar de uma paráfrase do gênero desta: terá havido na época moderna personalidades protestantes cujas virtudes, por analogia, façam pensar naquelas que a Igreja Católica reconhece nos santos por ela canonizados?


Assim formulada a questão, a resposta não suscita a menor dúvida. E é largamente positiva. Dessas personalidades espiritualmente altas e exemplares há um bom número, e um católico não teria qualquer motivo para lhes recusar a sua admiração.

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